Roberta Stella | Nutrição sem dieta


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Por que não é falta de força de vontade abandonar a dieta

Quando alguém abandona a dieta ou quer se justificar por ter deixado a restrição de lado, são comuns frases como “eu não tive força para resistir” ou “me faltou força de vontade para me manter na linha”. Um dos efeitos colaterais de qualquer restrição é sempre dar a sensação de que é uma falha da pessoa que deixou a dieta de lado e jamais mostrar que qualquer dieta está fadada a dar errada. Se tem alguma falha, ela é inerente à restrição alimentar ou à dieta.

Apesar do Homem estar na Terra há centenas de milhares de ano, uma característica não sofreu alteração até os dias de hoje: o corpo lança mão de todos os recursos para preservar a vida quando percebe que está em situação de risco. Vale lembrar que em qualquer restrição alimentar, o nosso organismo entende que não há disponibilidade de alimentos e, portanto, precisa usar recursos para que o corpo não definhe, não se desgaste excessivamente e, assim, ele preserva as funções vitais para manter-se vivo.

Isso explica o porquê da maioria das pessoas que fazem dieta recuperarem o peso. Simplesmente porque, Continuar lendo


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3 maneiras de cuidar da saúde sem precisar fazer dieta ou emagrecer

Emagrecer pode levar ao pensamento equivocado como sendo uma atitude de cuidado com a saúde. Apesar da maioria das pessoas ter o discurso de querer emagrecer por causa da saúde, o que se esconde são crenças construídas para chegar próximo a um padrão de beleza imposto culturalmente e aceito socialmente. Por exemplo, ter uma boa auto-estima sobrevive a qualquer forma de corpo, mas muita gente diz que quer emagrecer para melhorar a auto-estima o que seria uma justificativa de saúde e não de ideal de beleza para emagrecer.

Outros motivos falhos para emagrecer que são enumerados estão melhorar ou prevenir o colesterol alto, cuidar ou controlar a glicemia sanguínea e ter mais disposição física para fazer as atividades do dia a dia. Entretanto, para todas essas justificativas em defesa de emagrecer fazendo dieta há uma alternativa mais eficiente de atingir o objetivo Continuar lendo


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“Se é bom e gostoso, que mal tem?”

alimentos_superpoderesDetox, comida de verdade, receita fit, receita funcional, sem gluten, sem lactose, sem açúcar, sem conservantes, sem soja, sem leite. Ao comentar uma matéria e fazer algumas observações sobre esses tipos de alimento, deparei com a pergunta/reflexão: “se é bom e gostoso, que mal tem?”. Essa argumentação é muito simplista porque, apesar de concordar que a maioria desses alimentos não trazem prejuízo à saúde já que um alimento por si só não pode ser responsável por desenvolver uma doença ou, ainda, apesar de eu concordar que muitos deles são cheios de nutrientes importantes para a corpo – essas chamadas, comunicação, propaganda sem o respaldo da ciência, ou seja, sem o que chamamos de evidência científica (e abro parênteses para dizer que mostrar um artigo científico não significa que haja uma evidência científica suficientemente forte para relacionar os benefícios desses alimentos) podem levar a várias consequências:

1. Mudam a percepção de um alimento. Por exemplo: leite é um alimento típico de brasileiro, presente no café da manhã. Quem duvidar, basta ler o Guia Alimentar da População Brasileira. Sabemos que o leite é uma excelente fonte de cálcio e que a população brasileira já apresenta uma elevada prevalência de inadequação no consumo desse mineral. Passar a mensagem que alimentos e/ou receitas sem lactose são saudáveis (ou vice-versa) para uma população saudável beira a irresponsabilidade;

2. Relação com crenças, valores e desenvolvimento de mitos alimentares. Veículos de comunicação têm grande influência para mudar opiniões, construir crenças, valores e mitos relacionados aos alimentos;

3. Relação emocional com os alimentos. Condenar um nutriente ou alimento como o responsável pela má alimentação, estimular a restrição de nutriente ou alimento, propagar ideias e conceitos sem consenso leva à relação de culpa com os alimentos, à fissura alimentar e à transtornos alimentares;

4. Propaganda enganosa. Vender produtos e serviços que têm como apelo conceitos não embasados em evidências científicas é enganação, mentira e propaganda enganosa. Vale lembrar que nem tudo nessa vida tem evidência científica. Nesse caso, ficar atento ao conceito que está sendo vendido;

5. Acreditar que alimentos caros são melhores ou “mais saudáveis”. Todos clamam por mais “alimento de verdade” no dia a dia mas, tem muita gente (profissionais de saúde, blogueiras, empresas) vendendo alimentos industrializados e/ou com baixo valor nutricional e/ou caríssimos como sinônimo de saudável, além de comunicarem substituições de alimentos que podem ser inatingíveis para a maioria dos consumidores.

No meu pensar, muitos males têm ao se comunicar a alimentação de maneira distorcida, errada, com falta de embasamento, distorcendo conceitos. Todos que comunicam (e não precisam ser jornalistas para isso!), seja por meio de um rótulo de alimento ou usando a mídia (redes sociais, tv, rádio, revistas, jornais) precisam chamar para si a responsabilidade de educar (afinal, comunicar saúde é isso!) não abrindo mão da qualidade da informação. Se a comunicação é feita pela metade, a recepção da mensagem será distorcida.


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Dietas, emagrecimento e aceitação

Quando o assunto é “diga não às dietas” ou “dietas não emagrecem” ou, ainda, “dietas levam ao ganho de peso”, não espanto em perceber a confusão que se instala na mente das pessoas. O incentivo para que as dietas sejam deixadas de lado é, no mínimo, perturbador já que o senso comum é que, se há a intenção em emagrecer, a dieta é que vai levar ao peso desejado.

Essa busca pelas dietas e de sair e entrar em alguma nova promessa de emagrecimento não me soa estranha e, não julgo, nem errado quando alguém me diz que está em uma nova “reeducação alimentar” ou nova “estratégia para emagrecer” ou tentando uma nova dieta mesmo. Simplesmente porque está internalizada a ideia de que para emagrecer é fundamental fazer restrição (excluir ou limitar alimento/comida, grupo alimentar e/ou nutriente), fechar a boca, deixar de comer o que gosta e tantos outros pensamentos que passam pela cabeça. Se pensamos dessa maneira é mais do que esperado buscarmos uma dieta ou restrição alimentar.

Há muitas pesquisas que mostram que restrições alimentares levam ao emagrecimento, entretanto, ao chegar ao peso desejado há a recuperação do peso, muitas vezes, atingindo um peso maior do apresentado no início. E isso não ocorre com poucas pessoas, mais de 90% das que seguem dietas, passam pela frustração da recuperação do peso. Sim, se você faz dieta frequentemente, saiba, você não está sozinho.

Então, surge a dúvida: o que fazer para emagrecer? Se restrição não dá certo, parece que eu estou dizendo que, se você não se sente bem com o corpo que tem, você deverá levar esse desconforto para o resto da vida, certo? Errado!

É importante entender que o peso que temos é resultado das nossas escolhas alimentares. Aqui, preciso dizer que as nossas escolhas alimentares são complexas e sofrem influências de muitos fatores como, por exemplo, do tempo que há disponível para comer (sim, muita gente não prioriza a refeição e até prefere ir ao banco na hora do almoço do que comer), se come na frente do computador ou checando o instagram ao mesmo tempo que leva à boca garfadas de comidas uma atrás da outra; das emoções, do significado social da refeição ou da comida, do significado cultural e emocional da comida (sabe o bolo da mãe?), da disponibilidade de alimentos, do ambiente, da propaganda na tv, do blogueiro mais fit do mundo, do custo da alimentação, da rotina de afazeres, da mudança de rotina, da mudança de cidade ou de emprego. Facilmente, percebemos que quando nos propomos a seguir uma dieta, todos os fatores que influenciam nas nossas escolhas alimentares são negligenciados, ou seja, não são considerados. Agora, sabemos uma parte do porque que as dietas têm um índice altíssimo de insucesso.

Assim, para atender esses fatores, o objetivo principal é entender como você come. Percebe que nas dietas, o objetivo principal é emagrecer e, agora, para atender os fatores acima citados e tantos outros que não mencionei, é necessário mudar esse objetivo maior? Entendendo como você se alimenta e melhorando a sua atitude alimentar, o que acontecerá com o seu peso será consequência e você estará trabalhando para aceitar o seu corpo. Aqui, quero fazer somente uma observação: a aceitação do corpo pode ser trabalhada não, necessariamente, junto com a mudança alimentar. Algumas pessoas buscam, primeiro, a psicoterapia já, outras, por associarem a não aceitação com o peso, buscam o nutricionista ou, se preferir, o terapeuta nutricional. Por isso, como estou falando de uma parceria com o nutricionista, o processo de aceitação ocorre juntamente com mudanças nas atitudes alimentares. Mas, sim, a aceitação pode acontecer sem mudanças na alimentação.

Algo muito importante de ser dito, também, é que não fazer do peso o principal objetivo, não faz com que ele seja esquecido, muito pelo contrário. Questões relativas ao corpo serão constantemente trabalhadas, mas o número da balança não irá determinar o sucesso ou o progresso em tantas outras questões que precisarão ser visitadas (lembre-se das atitudes alimentares, entendimento e percepção do corpo).

Espero, que até aqui, esteja claro que o trabalho que será feito não tem como foco o emagrecimento. Se não é emagrecimento, isso significa que não haverá regras, restrições ou dietas.

Talvez você já tenha ouvido falar em alimentação intuitiva e o comer com atenção plena. Elas são duas formas para iniciar o olhar para os sinais do corpo, para prestar atenção ao que está sendo comido, olhar para as sensações, pensamentos e emoções que surgem antes, durante e logo após ter comido. Resgatar os sinais da fome e da saciedade, sabendo identificá-los, é um grande passo e progresso porque eles indicam quando começar a comer (fome) e quando parar de comer (saciedade). Racionalmente, parece um pouco óbvio, não é mesmo? Mas, a prática de dietas repetidas que impõem o que comer, quando comer e o quanto comer fez com que esses sinais fossem deixados de lado. Sinais tão inerentes do nosso corpo que são fundamentais para nos manter vivos podem estar relacionados com sentimentos desagradáveis como medo, raiva e decepção. Por isso, um dos caminhos que serão tomados será identificar esses sinais, pois quando sabemos quando comer e quando parar, temos um intervalo de tempo que será o período do comer (o quanto). Resgatar uma boa relação com os alimentos, trabalhando as crenças, sentimentos, a maneira como come, também, são aspectos que devem ser trabalhados.

Claro que não comemos somente quando temos fome! Comemos para comemorar, quando temos vontade ou desejo, quando estamos tristes ou alegres! Todas esses motivos que nos levam à escolha alimentar são legítimos (não há nada de errado em comer chocolate porque está com vontade, afinal, dificilmente, alguém tem fome de doce!) e devem ser atendidos, mas é necessário lembrar que o nosso comer deve ser regido, na maior parte do tempo, pela fome. Entender o melhor momento, a melhor quantidade, quando esperar, quando atender uma vontade é um processo particular, individual que nenhum guia alimentar conseguirá traduzir ou indicar.

Agora, gostaria de falar sobre corpos e corpo idealizado ou padrão de beleza. Sempre proponho para que as pessoas, na dificuldade de olhar e perceber o próprio corpo, olhem para outros corpos. Na rua, no ônibus, na fila do banco repare nos seios, barriga, coxas, bunda, braços. Ninguém é igual a ninguém! Mesmo se pegarmos meninas e meninos com o mesmo peso e a mesma altura, a forma de todos os corpos serão diferentes! Viva a diversidade! Viva a individualidade! Viva o seu corpo, tão único, tão particular!

Sobre isso, gostaria de abordar dois aspectos:
1. Aceitação: entender-se como uma pessoa única ajudará na aceitação do seu corpo. Aceitar o corpo é um processo e não se sinta pressionado a amá-lo da noite para o dia. Se você sente essa pressão com a onda body positive, vá com calma! Ninguém se ama tão repentinamente quando apresenta dificuldades em aceitar alguma parte ou todo o corpo. Mas, há muitas atitudes nesse caminho de aceitação. Por exemplo, você guarda roupas antigas esperando emagrecer para usá-las? As roupas que você usa hoje estão apertadas? Roupa apertada somada à idealização de um corpo que não é seu claro que não ajuda a gostar mais dele. Se desfazer das roupas e desconstruir o estigma do corpo são partes desse processo de aceitação.

2. Durante o processo de trabalhar as questões envolvidas nas escolhas alimentares, será percebido que o corpo possível e que é único para cada um de nós passa a ter um peso que é possível. Sairá da padronização dos corpos e passará para o que é seu, sustentável, possível, aceito. Esse aspecto é muito importante porque será a consequência de todo o trabalho realizado na alimentação, de entender, enfrentar e vivenciar as escolhas alimentares. Aqui, desejar chegar no manequim 38/40 poderá ser visto como algo irreal e será aceito (não de forma submissa) o peso que condiz com você. Quando digo você, não é o seu peso para a sua altura, mas considerando as suas emoções, as suas vontades, a sua fome, a sua saciedade, os seus compromissos, a sua rotina, o seu momento.

Para terminar esse texto tão longo quero falar da Rihanna. Antes, preciso dizer que o que direi sobre ela é uma suposição baseada na profissão dela que, assim como outras, sofrem a pressão para estarem sempre muito magras. Extremamente magras, aliás. Cantores, atletas, bailarinos, nutricionistas, educadores físicos, atores são profissões que tem uma pressão muito grande par estarem dentro do padrão, do peso idealizado. Se não estiver nesse peso, serão julgados como incompetentes, incapazes, fracassados. Por isso, são grupos que têm um risco maior para ter problemas com a alimentação e para desenvolver transtornos alimentares.

Sabemos que restrição alimentar é gatilho para a compulsão. Dietas (restrições) podem nos deixar magras, mas, como disse no início desse texto, voltamos a ganhar peso. E, muitas vezes, o peso será maior do que o inicial. Então, percebe-se que para manter aquele peso que se chegou com a restrição há muito sofrimento e os excessos alimentares passam a ser frequentes levando ao ganho de peso. As duas pontas dessa história estão desequilibradas. Muito provavelmente, o peso sustentável e possível está no meio desses dois extremos. Por que digo muito provavelmente? Porque não há fórmula matemática para eu prever e ter certeza. A certeza somente chegará no processo de todo o trabalho que conversamos acima.

Se você chegou até o final desse texto, saiba que isso me deixa feliz. Tudo o que escrevi pode ser confuso e difícil de assimilar. Talvez eu posso ajudar com alguns pensamentos:
1. Por que você quer emagrecer?
2. Já emagreceu antes? Se sim, você já atingiu o “por que” da resposta anterior, mas não sustentou? Você acredita que o que busca será alcançado com o emagrecimento?
3. Como você estipulou esse peso que deseja emagrecer? Ele foi baseado em quais questões ou motivos?
4. Você se sente pressionado para ser magro?
5. Você já pensou que o cuidado com o seu corpo pode começar sem ficar obcecado com o peso?
6. Você já pensou em vivenciar a alimentação sem julgamentos, respeitando o seu corpo, os sinais que ele emite, as suas vontades?
7. Quais partes do seu corpo você mais gosta. Você sabe valoriza-los?
8. Você comenta sobre o seu peso para as pessoas quando elas te elogiam? Por exemplo: “como você está linda hoje!” e você diz / pensa: “eu? na verdade, eu engordei!”.

Há muitas outras reflexões que você pode fazer para começar a quebrar a obrigatoriedade de estar magro para atingir o que deseja (saúde, beleza, sucesso, sensualidade) e perceber que dizer não à dieta não é comer do jeito que bem entender. É, na verdade, deixar de olhar para fora e começar a buscar as respostas que estão com você, respostas que estão adormecidas, mas que se questionadas irão surgir.