Roberta Stella | Nutrição sem dieta


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Resenha | A tirania das dietas. Dois mil anos de luta contra o peso. Louise Foxcroft

Ler o livro A tirania das dietas foi, para mim, um misto de curiosidade, surpresa e desconforto.

Um corpo não é somente um corpo por mais que desejaríamos que assim fosse. Um corpo está inserido em uma sociedade que dita regras de convívio e os significados político e cultural que ele representa. Um corpo não diz somente sobre um indivíduo, mas ele pode representar o que é o coletivo em que ele está inserido.

A autora Louise Foxcroft escreve: “Nosso corpo não apenas é inevitável, mas também o que a sociedade diz sobre ele, e o que consideramos “natural”, na verdade, é socialmente construído“.

Historiadores, filósofos e médicos da Antiguidade como, Galeno, Sócrates e, claro, Hipócrates ditaram regras alimentares e, até, comportamentos compensatórios como, por exemplo, a indução do vômito ou uso de laxantes para combater o corpo gordo já que comer tinha relação com a moral e, na falta dela (ser gordo significava ser inferior moralmente), a sociedade sofreria. Portanto, o preconceito contra corpos grande e gordos tem raízes antigas e se acentua na era cirstã onde a abstinência e o jejum são glorificados e atalhos para a salvação. O corpo magro passa a ser considerado divino e, o corpo gordo, pecaminoso. Continuar lendo


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Beber água para enganar a fome? É errado sentir fome?

Uma relação muito ruim com a comida e a imposição de regras alimentares levam à dificuldade de entendimento dos sinais do corpo da fome e da saciedade. Essa falta de entendimento leva ao medo de sentir a fome que pode trazer sensações desagradáveis já que, por querer emagrecer, a fome surge como algo negativo e, também, leva às atitudes alimentares que irão prejudicar o emagrecimento.

A seguir, cito três dessas atitudes:

(1) Por achar que a fome é uma sensação ruim, comer pode ser acompanhado de culpa e raiva, principalmente, se a comida for aquela proibida pelas dietas como, por exemplo, doces e chocolates;

(2) Por ter medo de ter fome, previne-se de senti-la comendo antes dessa sensação aparecer, podendo levar, portanto, a uma quantidade Continuar lendo


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Cultura da dieta

É necessário falar sobre cultura da dieta para haver uma maior compreensão dos motivos que levam à decodificação ou interpretação de informações relacionadas à comida ou à maneira como nos alimentamos serem relacionados a aspectos morais da pessoa. Por que uma pessoa que se alimenta com restrições alimentares, comendo o que é julgado de certo ou saudável, é admirada, vista como uma pessoa de sucesso e exemplo a ser seguido? Ou, mesmo não sabendo sobre o hábito alimentar das pessoas, temos a imaginação de como elas se alimentam baseados somente na aparência física?

As interpretações morais da comida, representadas por alimento com ou ruim, estão relacionadas com o desenvolvimento de estereótipos e preconceitos do tamanho do corpo.

Os padrões que construímos na relação comida e moral tem como raiz diversos fatores como históricos, culturais, sociais e, até, Continuar lendo


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Sobre magros e gordos

Uma sombra ou crítica que acompanha os nutricionistas que dizem não às dietas é que eles fazem a defesa do corpo gordo o que, irresponsavelmente, incentivaria essas pessoas a ficarem doentes. Somente essa frase daria um outro texto no qual a “saúde em todos os tamanhos” ou health at every size (HAES) seria a argumentação para entender que ter um corpo gordo não significa, necessariamente, uma pessoa sem saúde. Pessoas que têm a ideia de que o risco é causalidade propagam um erro grave de interpretação de resultados estatísticos. É sabido que não são todas as pessoas com diabetes, hipertensão, doenças coronarianas ou cânceres que apresentam obesidade. Por isso, julgar o corpo gordo como doente ou que irá desenvolver alguma doença em algum momento é mais uma questão de estigma que o acompanha do que de embasamento estatístico-científico sobre saúde.

Por outro lado, e parece que é mais fácil entender quando é falado do corpo magro, não há a relação de que essa forma de corpo isenta essas pessoas da doença. Você deve conhecer pessoas magras que tem diabetes ou câncer ou hipertensão. Mas você sabe que não são todas as pessoas que tem alguma doença crônica, magras; muito menos, associa que aquelas que não estão doentes hoje, todas desenvolverão algum problema de saúde.

Agora, por que estar com o IMC acima de 25, instantaneamente, leva as pessoas a deduzirem que todas estarão com alguma doença crônica em algum momento da vida? Por que há a crença da relação de causalidade entre estar com excesso de peso e doenças sendo que a relação é de risco?

Assim, quando falamos sobre corpos, não se trata de estar a favor dos magros e contra os gordos ou, então, a favor dos gordos e contra os magros. Essa dicotomia em relação ao peso (magros e gordos) é criticada tanto quanto a dos alimentos (bons e ruins, saudáveis ou não).

A busca é pelo peso natural. Isso é muito importante entender porque, se há a manutenção de um peso baseado em restrições alimentares, esse peso não é natural. Isso significa que se você precisa “controlar” ou “maneirar” em algum determinado alimento durante a semana para se permitir “um pouco no final de semana” e isso te faz ficar dentro desse peso, a estratégia está errada e, provavelmente, esse peso não é o seu naturalmente.

No meio da frase acima, há muitos aspectos a serem entendidos como respeito aos sinais da fome e da saciedade, desenvolvimento da autonomia alimentar e deixar de lado o “fiscal” ou “policial” da comida que coloca sempre o papel julgador em ação. Entendendo todos os aspectos relacionados na escolha e na quantidade de comida ingerida, o peso é consequência.

Nesse momento, começará a entender que, talvez, aquele peso menor não é, naturalmente, seu. Talvez, aquele peso maior não é, naturalmente, o seu.

Percebe-se, então, que peso é consequência de atitudes alimentares. Se as atitudes alimentares são ajustadas para as mais adequadas, o peso que se chegará é o que é o mais natural para você.

Aí, vem o trabalho de aceitação corporal, principalmente, em uma cultura tão opressora para o corpo mais pesado, em aceitar o peso maior do que aquele mantido artificialmente com restrições alimentares. Perceba que digo mais pesado porque, muitas vezes, encontrar o peso natural não significa sair do magro para o obeso. A maior parte, fica dentro do IMC normal, talvez, no sobrepeso. Mas, hoje em dia, isso é tão opressor que é traduzido como gordo ou obeso.

Entender, também, que comportamentos mais adequados em relação à alimentação e ao maior movimento do corpo são os aspectos modificáveis que se relacionam com a melhoria da saúde e do bem estar. O peso não é um comportamento, ou seja, não é modificado por si só. O peso muda se atitudes em relação à forma de se alimentar são ajustadas. Por isso, peso não é objetivo e nem meta. Peso natural é consequência e, para atingi-lo, a caminhada é longa (bem mais longa que as dietas restritivas), mas é um trabalho libertador para aceitar o peso natural e, ao mesmo tempo, melhorar o bem estar.


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A restrição travestida de saúde e bons valores

Esse mês, a Vogue e a Veja Rio destacaram a prática do jejum intermitente em suas capas. Diferentemente do que seria, no mínimo, uma matéria para reflexão e discussão, essas chamadas não incentivavam o entendimento da melhor forma de se alimentar (!), mas, sim, eram tendenciosas mostrando o quanto essa prática alimentar “dá resultados” para emagrecer e para a saúde.

 

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Informações equivocadas e irresponsáveis presentes na mídia prejudicam a relação das pessoas com o corpo, com a comida e são gatilhos para o desenvolvimento de transtornos alimentares. Quem se importa?

 

Não é de hoje que as mídias exploram escandalosamente a alimentação com finalidades estéticas, dietas para emagrecer e para entrar em forma. Dá IBOPE, aumenta as vendas, os views, os likes e os compartilhamentos. Infelizmente, quem escreve está pouco se preocupando com a nossa saúde. A meta é de venda, faturamento, visualizações e seja lá qual for o número interessante para a empresa. Vejo a radicalização das chamadas, distorções de conceitos e pouca empatia com as pessoas que sofrem com a insatisfação corporal e uma relação transtornada com os alimentos. Eu poderia listar muitas outras consequências de informações tão ruins, tão banalizadas, tão sem responsabilidades que os veículos estão se dispondo a divulgar. E não percebem o perigo. E se percebem, sinceramente, não estão preocupados com o que está acontecendo com você ou com o que pode acontecer. Essa é a triste realidade. Zero empatia.

Você, caro leitor, é pego sorrateiramente. De tanto ouvir que jejum é bom, que tem não sei qual número de estudos comprovando os impactos positivos para a saúde dessa estratégia alimentar, você passa a acreditar. Isso se chama internalizar a informação. É aquele momento que, se antes você duvidava, agora, tem como verdade, é inquestionável. E vai o pobre nutricionista dizer cuidado que ela pode piorar a sua situação quando, na verdade, tantos outros defendem o jejum, médicos dizem que ele é ótimo para emagrecer!

Quero dizer aqui que, por mais que haja estudos suportando a afirmativa de que há evidências na melhora de indicadores de saúde (e não de estética, corpo magro para atender a um padrão de beleza), tenho que avisar que a vida não acontece em um laboratório e não é uma experiência altamente controlada. Não, não é!

As escolhas alimentares são complexas e extrapolam a questão metabólica e dos nutrientes. Isso diz respeito aos significados da comida, significados esses sociais (pense o quanto os alimentos unem as pessoas), religiosos (imaginem a mesa do almoço de Páscoa, da ceia de Natal), emocional (comer nos remete à momentos e pessoas importantes na nossa vida).

Entretanto, vivemos na era da restrição alimentar. Ela nunca foi tão vangloriada e quem a suporta nunca foi tão enaltecido. Quem faz jejum é alguém antenado com a restrição moderna, é cool e carrega todos os clichês e estereótipos que a dieta traz: tem força de vontade, é focado e determinado. Pela complexidade das nossas escolhas alimentares como dito anteriormente, comer vai além de pensar em nutrientes e processos metabólicos que acontece no corpo na ausência e na presença de comida.

Restringir alimentos e calorias, e jejuar na sua forma mais grave leva a comportamentos e sensações negativos. Fissura alimentar, negação da fome e vontade de comer, raiva, atitude do tudo ou nada, excesso alimentar e episódios compulsivos, culpa, pensamento de que precisa restringir ainda mais, dietas e jejum e, assim, como se fosse um loop que persegue a vida, é construída uma relação completamente distorcida e transtornada com os alimentos e com a alimentação.

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Dieta dá fome.

 

Nesse mundo tão restrito às contas, metas, valores morais tão pequenos e mesquinhos, e de pensar que a vida é o lifestyle fake (estilo de vida falso) que vemos nas redes sociais, deixamos de olhar para o sofrimento, algo proibido de ser falado e mostrado.

Quem já não sentiu que estava errado em sentir o prazer que um pedaço de bolo traz? Ou se sentiu errado, fraco em tomar um sorvete para aplacar o calor? Esse é o início do comer transtornado que é antecedido na crença de que a restrição é o caminho para a saúde.

No final, todos e tudo está transfigurado. Noção de saúde, valores fracos, o que é ter sucesso, para que devemos comer, o respeito pelo nosso corpo e pelas nossas formas.

Fica aqui um alerta: não consuma esse tipo de informação, fuja de uma alimentação baseada somente em nutrientes, no que disseram que era bom ou ruim, no que disseram que era saudável ou não. Você precisa voltar a questionar o que está interiorizado. Sem esse questionamento, você se torna presa fácil de mensagens simplistas, distorcidas ou limitadas a um único ponto de vista.