Roberta Stella | Nutrição sem dieta


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A restrição travestida de saúde e bons valores

Esse mês, a Vogue e a Veja Rio destacaram a prática do jejum intermitente em suas capas. Diferentemente do que seria, no mínimo, uma matéria para reflexão e discussão, essas chamadas não incentivavam o entendimento da melhor forma de se alimentar (!), mas, sim, eram tendenciosas mostrando o quanto essa prática alimentar “dá resultados” para emagrecer e para a saúde.

 

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Informações equivocadas e irresponsáveis presentes na mídia prejudicam a relação das pessoas com o corpo, com a comida e são gatilhos para o desenvolvimento de transtornos alimentares. Quem se importa?

 

Não é de hoje que as mídias exploram escandalosamente a alimentação com finalidades estéticas, dietas para emagrecer e para entrar em forma. Dá IBOPE, aumenta as vendas, os views, os likes e os compartilhamentos. Infelizmente, quem escreve está pouco se preocupando com a nossa saúde. A meta é de venda, faturamento, visualizações e seja lá qual for o número interessante para a empresa. Vejo a radicalização das chamadas, distorções de conceitos e pouca empatia com as pessoas que sofrem com a insatisfação corporal e uma relação transtornada com os alimentos. Eu poderia listar muitas outras consequências de informações tão ruins, tão banalizadas, tão sem responsabilidades que os veículos estão se dispondo a divulgar. E não percebem o perigo. E se percebem, sinceramente, não estão preocupados com o que está acontecendo com você ou com o que pode acontecer. Essa é a triste realidade. Zero empatia.

Você, caro leitor, é pego sorrateiramente. De tanto ouvir que jejum é bom, que tem não sei qual número de estudos comprovando os impactos positivos para a saúde dessa estratégia alimentar, você passa a acreditar. Isso se chama internalizar a informação. É aquele momento que, se antes você duvidava, agora, tem como verdade, é inquestionável. E vai o pobre nutricionista dizer cuidado que ela pode piorar a sua situação quando, na verdade, tantos outros defendem o jejum, médicos dizem que ele é ótimo para emagrecer!

Quero dizer aqui que, por mais que haja estudos suportando a afirmativa de que há evidências na melhora de indicadores de saúde (e não de estética, corpo magro para atender a um padrão de beleza), tenho que avisar que a vida não acontece em um laboratório e não é uma experiência altamente controlada. Não, não é!

As escolhas alimentares são complexas e extrapolam a questão metabólica e dos nutrientes. Isso diz respeito aos significados da comida, significados esses sociais (pense o quanto os alimentos unem as pessoas), religiosos (imaginem a mesa do almoço de Páscoa, da ceia de Natal), emocional (comer nos remete à momentos e pessoas importantes na nossa vida).

Entretanto, vivemos na era da restrição alimentar. Ela nunca foi tão vangloriada e quem a suporta nunca foi tão enaltecido. Quem faz jejum é alguém antenado com a restrição moderna, é cool e carrega todos os clichês e estereótipos que a dieta traz: tem força de vontade, é focado e determinado. Pela complexidade das nossas escolhas alimentares como dito anteriormente, comer vai além de pensar em nutrientes e processos metabólicos que acontece no corpo na ausência e na presença de comida.

Restringir alimentos e calorias, e jejuar na sua forma mais grave leva a comportamentos e sensações negativos. Fissura alimentar, negação da fome e vontade de comer, raiva, atitude do tudo ou nada, excesso alimentar e episódios compulsivos, culpa, pensamento de que precisa restringir ainda mais, dietas e jejum e, assim, como se fosse um loop que persegue a vida, é construída uma relação completamente distorcida e transtornada com os alimentos e com a alimentação.

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Dieta dá fome.

 

Nesse mundo tão restrito às contas, metas, valores morais tão pequenos e mesquinhos, e de pensar que a vida é o lifestyle fake (estilo de vida falso) que vemos nas redes sociais, deixamos de olhar para o sofrimento, algo proibido de ser falado e mostrado.

Quem já não sentiu que estava errado em sentir o prazer que um pedaço de bolo traz? Ou se sentiu errado, fraco em tomar um sorvete para aplacar o calor? Esse é o início do comer transtornado que é antecedido na crença de que a restrição é o caminho para a saúde.

No final, todos e tudo está transfigurado. Noção de saúde, valores fracos, o que é ter sucesso, para que devemos comer, o respeito pelo nosso corpo e pelas nossas formas.

Fica aqui um alerta: não consuma esse tipo de informação, fuja de uma alimentação baseada somente em nutrientes, no que disseram que era bom ou ruim, no que disseram que era saudável ou não. Você precisa voltar a questionar o que está interiorizado. Sem esse questionamento, você se torna presa fácil de mensagens simplistas, distorcidas ou limitadas a um único ponto de vista.


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Além da mensagem: redes sociais e informação sobre emagrecimento e alimentação | Parte 1

Primeira parte do vídeo, que converso com Daiana Garbin do canal Eu Vejo sobre mensagens que postadas nas redes sociais que incentivam mitos e internalizam informações que levam a uma relação ruim com o corpo e com a comida. É um convite para refletir além da mensagem que à primeira vista parece motivadora ou engraçada, mas reforçam hábitos e comportamentos inadequados com a comida, o corpo e a atividade física.


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Além da mensagem: redes sociais e informação sobre emagrecimento e alimentação | Parte 2

Segunda parte do vídeo, que converso com Daiana Garbin do canal Eu Vejo sobre mensagens que postadas nas redes sociais que incentivam mitos e internalizam informações que levam a uma relação ruim com o corpo e com a comida. É um convite para refletir além da mensagem que à primeira vista parece motivadora ou engraçada, mas reforçam hábitos e comportamentos inadequados com a comida, o corpo e a atividade física.