Roberta Stella | Nutrição sem dieta


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O problema da qualidade nas redes sociais

Comunicar saúde é uma das coisas mais difíceis de se fazer. Trabalho há 16 anos fazendo conteúdo, escrevendo para sites, blogs, Facebook e Instagram, além, de colaborar como fonte de diversas mídias. Não há um dia sequer que eu não reveja criticamente tudo o que já falei e me policio cada vez mais para não falar uma coisa quando queria dizer outra. É duro porque, apesar de eu acreditar que se uma única pessoa para e lê com atenção o que escrevo, isso já valeu muito a pena; há uma certa cobrança em querer impactar mais e mais pessoas. Só que, o meu valor é passar boa informação e não ter dezenas de milhares de seguidores, e quero muito, ingenuamente, preservar esse valor.

Falo isso porque há uma batalha que é travada silenciosamente pelos profissionais de saúde quando falamos de conteúdo para as redes sociais (falo aqui delas, mas, acredito que o apelo está sendo em toda forma de inserção na mídia). A corrida é para ter mais curtidas, comentários, seguidores e compartilhamentos; métricas essas que indicam engajamento e relevância. Há algum tempo se dizia (e ainda ouvimos isso) que métricas de engajamento e relevância indicam qualidade da informação. Assim, quanto mais seguidores tiver um perfil, maior será o retorno dele (no caso de venda de produtos, por exemplo). Quanto mais um post ou imagem for compartilhado, curtido e comentado, isso indicaria engajamento (envolvimento) e qualidade da mensagem que está sendo passada. Vejo, nesse pensar, até uma certa lógica para propagandas, análise de produtos e serviços, mas não quando falamos em qualidade da informação de saúde para os cidadãos comuns.

Só que, vale lembrar, para chamar atenção de empresas que anunciam produtos e para chamar a atenção de pessoas que não sabem discernir ou diferenciar uma boa informação de uma péssima informação, a qualidade é jogada no lixo. Chamadas muito mastigadas, prontas para serem engolidas e digeridas e que, caro leitor, vão saber te pegar certinho pela curiosidade ou pelo senso comum, pecam muito pela qualidade, e são essas chamadas e textos que você vai curtir, compartilhar e comentar nas suas redes sociais.

Profissionais de saúde estão passando péssimas informações pelas redes sociais. Fomentam ou incentivam comportamentos inadequados, restrições alimentares, disseminam mitos que, no final, irão prejudicar o seu senso crítico. Você se sente confuso, não sabe o que é certo e o que é errado, se sente em um beco sem saída. Tenho certeza que, a maioria dos usuários dessas redes sociais, vai decidir seguir aquele perfil de profissional que tem mais seguidores, mais curtidas, mais compartilhamentos, mais comentários, maior engajamento, maior relevância e, na maioria das vezes, péssima qualidade pensando que números grandes indicam qualidade do conteúdo.

Veja o exemplo abaixo que achei ontem no Instagram:

comida_drogaNutricionista classificando a comida como droga. Se há alguém com ansiedade, a imagem diz que usará essa droga para combate-la. Vamos conversar sobre ansiedade e comida: muitas vezes, não sabemos identificar e entender a ansiedade e tantas outros emoções. É um grande desconforto emocional para a pessoa que convive com ela. Como fuga ou até como conforto, a comida é usada para não vivenciar o desconforto que a ansiedade traz – nem que seja por alguns minutos. No texto, abaixo da imagem, a profissional diz que a comida irá aumentar a compulsão. Episódios compulsivos têm como gatilho a restrição alimentar. O raciocínio é: eu não como porque alguém disse que comida é uma droga, nego a vontade, vem a fissura que culmina com o episódio compulsivo. Então, essa profissional erra 2 vezes: 1. chamando a comida de droga o que, aliás, coloca o terror em cima da comida) e 2. Comer leva a compulsão alimentar quando, na verdade, a restrição que ela incentiva que levará.

Mas, não termina aqui. Ela ainda diz que o exercício é o remédio para a depressão. Atividade física é excelente e indicada para melhorar a sintomatologia da depressão, ou seja, ameniza os sintomas, mas não é remédio que cura a depressão.

No meu entendimento, esse post é um grande, enorme desserviço distribuído por uma nutricionista. Fico me perguntando: o que profissionais assim ganham com isso? Seguidores? Curtidas? Vale a pena esse efeito colateral tão devastador que é não informar, que é prejudicar a relação que já anda tão transtornada com os alimentos?

Por isso, querido leitor, ligue o seu botão do senso crítico. Sei que há desânimo geral e queremos respostas fácies de serem digeridas e passamos a acreditar em informações cheias de frases de efeito, mas que só trazem prejuízos.

A filósofa Márcia Tiburi, nesse video aqui, fala sobre um “fenômeno na nossa época, que é o fato que as pessoas, hoje em dia, estão tendo uma experiência impressionante com respostas prontas porque se a gente pensar bem, quando a gente encontra uma resposta, se a gente está vivo do ponto de vista cognitivo, se a gente ainda está inteligente, a gente pergunta em relação àquela resposta que veio pronta”. Ela vai além, questionando: “o que será que está havendo com a nossa vida cognitiva, hoje, com o nosso pensamento atual, para gente aceitar tão fácil tanta resposta pronta?”. O vídeo é longo, mas, calma! Esse trecho são os seis primeiros minutos. Veja que é bem interessante.

Por isso, o alerta é: leia, faça perguntas, busque o pensar de outros profissionais, diferentes condutas, pesquise em sites de saúde como Ministério da Saúde, Organização Mundial de Saúde, associações de saúde e conselhos. Perguntando, você vai sair da superficialidade e terá melhor entendimento do tema. Claro, se você percebe que há algo que precisa ser trabalhado em você, faça uma consulta presencial.