Roberta Stella | Nutrição sem dieta

Da lancheira da Bela Gil ao texto da Maya

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Há alguns dias, a Bela Gil publicou no Instagram uma foto da lancheira da filha dela e isso gerou muitos comentários de estranheza que a fez escrever um lindo texto em defesa da lancheira e da alimentação infantil saudáveis. O post no blog de Bela está aqui e a imagem está reproduzida abaixo.

lancheira bela gil

Primeiro, preciso dizer que o texto da Bela é muito inspirador e tem os valores nobres que todo nutricionista deve carregar ao colocar em prática a profissão como incentivo à alimentação regional, à educação nutricional infantil, aborda a importância de uma melhor alimentação escolar e a alimentação com produtos frescos e mais naturais como prevenção de doenças crônicas como obesidade, diabetes, hipertensão, cânceres, entre tantas outras.

Quero deixar bem claro aqui que, o que desejo fazer nesse texto é convidar você a refletir sobre fotos de comidas nas redes sociais e, principalmente, quando elas são postadas por profissionais de saúde, neste caso, por nutricionistas.

Há algum tempo, venho refletindo sobre como mensagens nutricionais são passadas nas redes sociais. Como eu tenho um histórico de trabalho em tecnologia de 15 anos, percebo que houve uma mudança muito grande com o passar dos anos e que se acelerou com os perfis “saudáveis” ou “fit” ou a prática profissional de nutricionistas na internet usando as redes sociais como propagação de mensagens ou informações sobre boa alimentação.

Tão popular nas redes sociais, o clique da foto do prato ou de um alimento pode levar a entender que o que se vê é o modelo de alimentação saudável que o consumidor da informação deve seguir. E, definitivamente, não é.

A foto da lancheira é um bom exemplo disso. O instante captado, pela mãe, da alimentação da filha está recheado de vivência com bons alimentos, histórico de como a criança foi educada nutricionalmente, qual ambiente a estimulou a escolher determinados alimentos, exemplos positivos dos pais que soa natural a lancheira ter batata doce, banana da terra, granola caseira e água.

Quem dera, no Brasil, onde 33,5% das crianças de 5 a 9 anos e 20,5% dos adolescentes estão com excesso de peso, sem contar aquelas que nos primeiros anos de vida já possuem um padrão alimentar prejudicado; que nossas crianças tivessem essa vivência e educação alimentar que tem a filha de Bela. Mas, não é isso o que acontece. E, por isso, a grande estranheza e comentários negativos que essa imagem teve.

No Brasil, metade da população está com excesso de peso. São crianças que possuem pais que não perceberam que o baixo ou nenhum consumo de alimentos fresco e naturais aliado à inatividade física, os colocariam (pais e filhos) em risco levando ao excesso de peso que têm como consequências as suas comorbidades (doenças citadas acima) e a diminuição da qualidade de vida.

O padrão alimentar do brasileiro está baseado em alimentos altamente industrializados onde néctares, biscoitos, bolos, refrigerantes e batata frita fazem parte do dia a dia alimentar. E saltar desse padrão para o que tem batata doce cozida na lancheira de uma criança parece piada, mas não é. Essa estranheza mostra que entre dois momentos que são o padrão alimentar inadequado da população e uma alimentação de qualidade há uma caminho a se percorrer. E quando o paladar, as emoções, a cultura e a disponibilidade de alimentos estão fortemente associadas com os comfort foods, ricos em açúcares, ricos em gorduras saturas e trans, pobres em fibras e vitaminais; é prudente ter o “inimigo”como aliado. E o nome disso é moderação.

E onde entra a Maya?

A Dra. Maya Adam é professora na Universidade de Stanford e leciona sobre alimentação infantil (deixarei no final desse texto o curso dela no Coursera sobre Nutrição Infantil e culinária que recomendo fortemente). E ela tem um post no blog dela com o título: Moderation, Part 1: let them eat cake (just not too much) que traduzindo seria Moderação, Parte 1: deixe-as comer bolo (somente não muito). Nesse post, ela aborda a época de festas (foi escrito em dezembro) e como os pais estão preocupados em afastar os filhos das calorias vazias. E, em determinado ponto ela escreve: “quando nós ensinamos nossas crianças a praticar a moderação, nós damos a elas uma ferramenta de sobrevivência realmente poderosa. (…) Em um país onde o excesso é a norma, ensinar nossas crianças a comer moderadamente pode salvar a vida delas.”

E eu concordo com ela.

Gostaria muito que todos fizessem alguma reflexão sobre o tema e deixo algumas questões para pensar. Se você quiser deixar a sua opinião, adoraria saber qual é ela. Se preferir, você pode me mandar uma email usando robertahstella@gmail.com

Para pensar
– Você quando vê uma foto de um prato saudável pensa que deve ser o padrão e consumir os mesmos alimentos? Em algum momento se sente impotente para começar a mudança? Acha difícil ou inviável quando pensa nos alimentos que vê como parte de sua rotina? Qual seria a transição ou os melhores alimentos que pode ser incorporado na sua rotina e que serão estímulos para a mudança?
– Aos profissionais de saúde: o quanto a foto do seu alimento ou do seu prato indica para o consumidor da informação que é aquilo que ele precisa fazer? Pense na mensagem inconsciente/subjetiva que ele carregará. O estímulo a uma boa alimentação considera que todos os perfis de pessoas estão sendo impactadas, inclusive o perfil de maior risco (excesso de peso)? Você considera esse aspecto na comunicação de seus posts?

Links
Bela Gil (blog): http://www.belagil.com/blog/2015/5/27/merenda-escolar-no-exceo
Bela Gil (Instagram): https://instagram.com/belagil
Dra. Maya Adam (blog): http://justcookforkids.com/blog/moderation-part-1/
Dra. Maya Adam (curso sobre nutrição infantil e culinária, em inglês): https://www.coursera.org/instructor/madam

Você pode falar o que pensa, aqui!

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