Roberta Stella | Nutrição comportamental, sem dieta e mais empática

Sobre magros e gordos

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Uma sombra ou crítica que acompanha os nutricionistas que dizem não às dietas é que eles fazem a defesa do corpo gordo o que, irresponsavelmente, incentivaria essas pessoas a ficarem doentes. Somente essa frase daria um outro texto no qual a “saúde em todos os tamanhos” ou health at every size (HAES) seria a argumentação para entender que ter um corpo gordo não significa, necessariamente, uma pessoa sem saúde. Pessoas que têm a ideia de que o risco é causalidade propagam um erro grave de interpretação de resultados estatísticos. É sabido que não são todas as pessoas com diabetes, hipertensão, doenças coronarianas ou cânceres que apresentam obesidade. Por isso, julgar o corpo gordo como doente ou que irá desenvolver alguma doença em algum momento é mais uma questão de estigma que o acompanha do que de embasamento estatístico-científico sobre saúde.

Por outro lado, e parece que é mais fácil entender quando é falado do corpo magro, não há a relação de que essa forma de corpo isenta essas pessoas da doença. Você deve conhecer pessoas magras que tem diabetes ou câncer ou hipertensão. Mas você sabe que não são todas as pessoas que tem alguma doença crônica, magras; muito menos, associa que aquelas que não estão doentes hoje, todas desenvolverão algum problema de saúde.

Agora, por que estar com o IMC acima de 25, instantaneamente, leva as pessoas a deduzirem que todas estarão com alguma doença crônica em algum momento da vida? Por que há a crença da relação de causalidade entre estar com excesso de peso e doenças sendo que a relação é de risco?

Assim, quando falamos sobre corpos, não se trata de estar a favor dos magros e contra os gordos ou, então, a favor dos gordos e contra os magros. Essa dicotomia em relação ao peso (magros e gordos) é criticada tanto quanto a dos alimentos (bons e ruins, saudáveis ou não).

A busca é pelo peso natural. Isso é muito importante entender porque, se há a manutenção de um peso baseado em restrições alimentares, esse peso não é natural. Isso significa que se você precisa “controlar” ou “maneirar” em algum determinado alimento durante a semana para se permitir “um pouco no final de semana” e isso te faz ficar dentro desse peso, a estratégia está errada e, provavelmente, esse peso não é o seu naturalmente.

No meio da frase acima, há muitos aspectos a serem entendidos como respeito aos sinais da fome e da saciedade, desenvolvimento da autonomia alimentar e deixar de lado o “fiscal” ou “policial” da comida que coloca sempre o papel julgador em ação. Entendendo todos os aspectos relacionados na escolha e na quantidade de comida ingerida, o peso é consequência.

Nesse momento, começará a entender que, talvez, aquele peso menor não é, naturalmente, seu. Talvez, aquele peso maior não é, naturalmente, o seu.

Percebe-se, então, que peso é consequência de atitudes alimentares. Se as atitudes alimentares são ajustadas para as mais adequadas, o peso que se chegará é o que é o mais natural para você.

Aí, vem o trabalho de aceitação corporal, principalmente, em uma cultura tão opressora para o corpo mais pesado, em aceitar o peso maior do que aquele mantido artificialmente com restrições alimentares. Perceba que digo mais pesado porque, muitas vezes, encontrar o peso natural não significa sair do magro para o obeso. A maior parte, fica dentro do IMC normal, talvez, no sobrepeso. Mas, hoje em dia, isso é tão opressor que é traduzido como gordo ou obeso.

Entender, também, que comportamentos mais adequados em relação à alimentação e ao maior movimento do corpo são os aspectos modificáveis que se relacionam com a melhoria da saúde e do bem estar. O peso não é um comportamento, ou seja, não é modificado por si só. O peso muda se atitudes em relação à forma de se alimentar são ajustadas. Por isso, peso não é objetivo e nem meta. Peso natural é consequência e, para atingi-lo, a caminhada é longa (bem mais longa que as dietas restritivas), mas é um trabalho libertador para aceitar o peso natural e, ao mesmo tempo, melhorar o bem estar.

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