Roberta Stella | Nutrição comportamental, sem dieta e mais empática

“Se é bom e gostoso, que mal tem?”

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alimentos_superpoderesDetox, comida de verdade, receita fit, receita funcional, sem gluten, sem lactose, sem açúcar, sem conservantes, sem soja, sem leite. Ao comentar uma matéria e fazer algumas observações sobre esses tipos de alimento, deparei com a pergunta/reflexão: “se é bom e gostoso, que mal tem?”. Essa argumentação é muito simplista porque, apesar de concordar que a maioria desses alimentos não trazem prejuízo à saúde já que um alimento por si só não pode ser responsável por desenvolver uma doença ou, ainda, apesar de eu concordar que muitos deles são cheios de nutrientes importantes para a corpo – essas chamadas, comunicação, propaganda sem o respaldo da ciência, ou seja, sem o que chamamos de evidência científica (e abro parênteses para dizer que mostrar um artigo científico não significa que haja uma evidência científica suficientemente forte para relacionar os benefícios desses alimentos) podem levar a várias consequências:

1. Mudam a percepção de um alimento. Por exemplo: leite é um alimento típico de brasileiro, presente no café da manhã. Quem duvidar, basta ler o Guia Alimentar da População Brasileira. Sabemos que o leite é uma excelente fonte de cálcio e que a população brasileira já apresenta uma elevada prevalência de inadequação no consumo desse mineral. Passar a mensagem que alimentos e/ou receitas sem lactose são saudáveis (ou vice-versa) para uma população saudável beira a irresponsabilidade;

2. Relação com crenças, valores e desenvolvimento de mitos alimentares. Veículos de comunicação têm grande influência para mudar opiniões, construir crenças, valores e mitos relacionados aos alimentos;

3. Relação emocional com os alimentos. Condenar um nutriente ou alimento como o responsável pela má alimentação, estimular a restrição de nutriente ou alimento, propagar ideias e conceitos sem consenso leva à relação de culpa com os alimentos, à fissura alimentar e à transtornos alimentares;

4. Propaganda enganosa. Vender produtos e serviços que têm como apelo conceitos não embasados em evidências científicas é enganação, mentira e propaganda enganosa. Vale lembrar que nem tudo nessa vida tem evidência científica. Nesse caso, ficar atento ao conceito que está sendo vendido;

5. Acreditar que alimentos caros são melhores ou “mais saudáveis”. Todos clamam por mais “alimento de verdade” no dia a dia mas, tem muita gente (profissionais de saúde, blogueiras, empresas) vendendo alimentos industrializados e/ou com baixo valor nutricional e/ou caríssimos como sinônimo de saudável, além de comunicarem substituições de alimentos que podem ser inatingíveis para a maioria dos consumidores.

No meu pensar, muitos males têm ao se comunicar a alimentação de maneira distorcida, errada, com falta de embasamento, distorcendo conceitos. Todos que comunicam (e não precisam ser jornalistas para isso!), seja por meio de um rótulo de alimento ou usando a mídia (redes sociais, tv, rádio, revistas, jornais) precisam chamar para si a responsabilidade de educar (afinal, comunicar saúde é isso!) não abrindo mão da qualidade da informação. Se a comunicação é feita pela metade, a recepção da mensagem será distorcida.

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