Roberta Stella | Nutrição sem dieta

Resenha | A tirania das dietas. Dois mil anos de luta contra o peso. Louise Foxcroft

| 0 comentários

Ler o livro A tirania das dietas foi, para mim, um misto de curiosidade, surpresa e desconforto.

Um corpo não é somente um corpo por mais que desejaríamos que assim fosse. Um corpo está inserido em uma sociedade que dita regras de convívio e os significados político e cultural que ele representa. Um corpo não diz somente sobre um indivíduo, mas ele pode representar o que é o coletivo em que ele está inserido.

A autora Louise Foxcroft escreve: “Nosso corpo não apenas é inevitável, mas também o que a sociedade diz sobre ele, e o que consideramos “natural”, na verdade, é socialmente construído“.

Historiadores, filósofos e médicos da Antiguidade como, Galeno, Sócrates e, claro, Hipócrates ditaram regras alimentares e, até, comportamentos compensatórios como, por exemplo, a indução do vômito ou uso de laxantes para combater o corpo gordo já que comer tinha relação com a moral e, na falta dela (ser gordo significava ser inferior moralmente), a sociedade sofreria. Portanto, o preconceito contra corpos grande e gordos tem raízes antigas e se acentua na era cirstã onde a abstinência e o jejum são glorificados e atalhos para a salvação. O corpo magro passa a ser considerado divino e, o corpo gordo, pecaminoso.

A noção de autocontrole alimentar também, datam da era antiga, antes de Cristo. Durante a leitura foi inevitável perceber e entender que, apesar dos avanços e da disseminação do conhecimento, ainda persistem pensamentos e falas que foram criadas na antiguidade.

E qual não foi a minha surpresa ao ler que Brillat-Savarin (1755-1826), juiz apaixonado pelos prazeres da mesa e que fundou a ciência da gastronomia, autor do famoso livro “A fisiologia do gosto”, assina a “dieta antigordura” onde condena os carboidratos culpando os amidos, açúcares e farináceos” pela obesidade! Não satisfeito em encontrar uma causa para a obesidade, Brillat-Savarin criou uma cinta anticorpulência!

O livro segue mostrando como a iniciativa – sem muito impacto – de alguns cientistas alertando contra os oportunistas que propagavam mentiras e prometiam o emagrecimento fácil e rápido, bastando uma boa dose de autocontrole e persistência. Interessante perceber como as orientações para um corpo moralmente melhor (o que significava ser mais magro), eram sempre renovadas, atualizando somente as promessas e o uso da publicidade até chegar no começo do século passado onde as celebridade passaram a ser as porta-vozes das dietas criadas, vendendo o sonho de atingir o corpo da estrela favorita do cinema.

Em A Tirania das dietas, para as mulheres pós guerra (1920-1930), a ordem era não se parecer com o inimigo sendo que os franceses passaram a ditar questões relativas ao corpo através da moda e de revistas femininas como a Vogue. No início do século passado, o modelo de beleza eram mulheres magras, com poucos seios e quadris. Nessa época, cigarros e chicletes eram vendidos com a promessa de emagrecer. Por que será que muitos ainda cultivam a idéia de que fumar faz comer menos ou que parar de fumar leva ao ganho de peso?

Mais tarde, o ideal de beleza e corpo muda. Marilyn Monroe e suas curvas, símbolo da mulher sensual da época, também se rendeu aos gurus do emagrecimento de então. Assim como outras – ou todas – as estrelas hollywoodianas, como Greta Garbo, Audrey Hepburn, Jane Russell e Lana Turner.

Em meio a espartilhos, cintas modeladoras, culpabilização dos carboidratos, massagens modeladoras e tentativas da ciência em combater os enganadores e gurus do emagrecimento, termino o livro com a sensação de que avançamos pouco sobre como vemos e entendemos o corpo gordo, se obesidade é doença ou sintoma e como o emagrecimento justificado pela saúde, mas com a promessa da juventude e felicidade ainda são lacunas que remontam à época dos gregos e romanos.

A historiadora e autora do livro, apesar de fazer uma crítica às dietas, finaliza o livro dando a sua receita para uma alimentação saudável, o que não deixa de ser “passar uma dieta”, mas evolui ao citar a importância de mudanças comportamentais, além, do apoio de um grupo de pessoas.

Como sempre, é importante ler A tirania das dietas com muito senso crítico e um pouco de sangue de barata ao perceber que o estigma e preconceito do corpo gordo, e a imposição de regras alimentares repaginadas ao longo dos séculos para atingir um padrão de beleza foram absorvidas pelas nossas mentes e é, agora, necessário um trabalho imenso questionando tudo o que é lido, que estão nos perfis dos musas fit, do profissional de saúde que deixa a especialidade de lado e embarca a falar sobre alimentação e reforça uma relação ruim com a comida e com o corpo; nas propagadas de dieta, comida e beleza, além de todas as reportagens sobre o tema.

 

 

Livro: A tirania das dietas. Dois mil anos de luta contra o peso.
Autora: Louise Foxcroft
Tradução: Luís Carlos Borges
Editora: Três Estrelas
Ano: 2013
Número de páginas: 280

Sinopse: A luta de mulheres e homens contra o excesso de peso é tão antiga quanto a civilização ocidental. Desde a Grécia clássica, centenas de dietas – das mais sensatas às mais absurdas – foram criadas para tentar regular a nossa complicada relação com a comida, o corpo e a balança. A história dos principais regimes, desde o de Hipócrates até o do dr. Atkins, é o tema desse livro surpreendente, esclarecedor e bem-humorado. A obra, escrita pela historiadora britânica Louise Foxcroft, põe em xeque uma série de mitos ligados às modas de emagrecimento, estimulando o leitor a libertar-se de vez da tirania das dietas.

Deixe uma resposta

Google+