Roberta Stella | Nutrição comportamental, sem dieta e mais empática

Quando eu trabalhava com programa de dieta online

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Há algum tempo, tenho pensado em escrever esse texto. As razões para ele vão desde conversar com as pessoas que seguem o meu trabalho há anos e notam a minha mudança de posicionamento, opiniões e conduta e, até para eu deixar claro qual é o meu posicionamento sobre as dietas. Então, é um texto que divide a minha conduta profissional porque, nela, não pode haver meio termo, ou seja, a minha atuação profissional mudou.

Essa mudança que digo aqui não ocorreu do dia para a noite. Não foi de repente e tão pouco fácil de eu aceitar e entender. Assim, no meio dessa minha história profissional, tiveram altos e baixos, questionamentos que passaram a ser diários e quase torturantes. É aquela grande insatisfação que, talvez, você que lê esse texto já sentiu. Bem, é melhor eu voltar lá para o ano de 2000. No ano anterior, em dezembro de 1999, graduei-me em Nutrição pela Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP/USP). Já no mês seguinte, me vi frente a um grande desafio. Para mim, usando uma palavra muito usada atualmente, considerei inovador um nutricionista poder trabalhar dentro da área da tecnologia/conteúdo de internet.

E lá estava eu, recém-formada e com aquela vontade de revolucionar o mundo, típica dos jovens que saem da faculdade. Ficava imaginando o quão incrível era poder falar com muitas pessoas, saber que uma ferramenta (chat, por exemplo) levaria uma informação sobre Nutrição para centenas, milhares de pessoas ao mesmo tempo. E, assim, foi. Comecei respondendo emails em um site de receitas, fazendo chats para o maior portal do país. Amava o que eu fazia.

Eu participando de um chat em 2001.

Depois de muito trabalho, ficava claro que os usuários desse serviço não tinham dúvidas somente sobre como e o que cozinhar mas, muitos queriam saber sobre como se alimentar melhor. Percebida a demanda, no final de 2001, fiz parte do desenvolvimento do primeiro site comercial de dietas no Brasil. Em 2005, já com algumas questões sobre conteúdo de Nutrição e atuação do nutricionista na internet me fazendo olhar de outra maneira o conteúdo e o posicionamento desse tipo de serviço, deixo o trabalho e inicio o mestrado (2006), também, na FSP/USP. No final do 2006, retorno para trabalhar com internet. Adivinhem? Em um outro site de emagrecimento online.

Aqueles questionamentos, muito mal resolvidos em 2005, iriam me levar para algo que considero uma crise profissional. Cenário completamente diferente, demandas e objetivos que passaram a me fazer mais e mais perguntas sobre onde eu estava, o que eu queria e se realmente os meus valores e em que eu acreditava estavam sendo alimentados ou, simplesmente, passei a remar contra a forte maré. Já era 2014 e, simplesmente, precisava acabar com essa luta interna e, também, com algo que iria seguir um rumo que eu tinha que aceitar que não seria o que eu acreditava ser o melhor para a minha atuação profissional e, também, para quem tinha acesso ao serviço (claro, sobre como comunicar saúde, nutrição, emagrecimento, alimentação, corpo). Acreditem, emocionalmente, eu me sentia arruinada. Impulsivamente, fui embora. Decisão tomada.

Volto no início de 2016 e sou convidada para? Adivinhem? Sim, voltar a prestar serviço para o mesmo site de dieta. Aqui, tem muitas coisas importantes a considerar: 1. Não voltei no esquema full time de trabalho e, como prestadora de serviço, preservei, a minha autonomia; 2. apesar de minha autonomia, eu não tinha o papel de decisão na comunicação e projetos, ou seja, as orientações feitas muitas vezes (talvez, na maioria) não as via na prática. Claro, isso levou a insatisfações dos dois lados culminando no rompimento em junho desse ano (2017).

Do início de 2000 até 2017, construí a minha carreira dentro de sites de emagrecimento. Você pode dizer que eu bati muito a cabeça apesar das evidências, não é mesmo? Pois é, mas eu acreditava que era possível fazer algo muito bom no que diz respeito à comunicação e atuação do nutricionista nessa área. Acreditava.

Eu sempre acreditei na autonomia do nutricionista e no poder de decisão. Eu sempre acreditei que era o nutricionista que tinha que ditar questões relacionadas à alimentação. Parece óbvio, mas não é. Hoje, entendo perfeitamente a mudança por qual passaram esses serviços. É a única coisa a ser esperada. De uma certa maneira, eu tive resistência. Admito isso, eu não tive maturidade e, principalmente, conhecimento para em 2006, com o mestrado em andamento, em dizer não a uma nova proposta. Aquele era o momento que eu deveria ter feito a mudança e, não, 11 anos depois.

Quando olhamos somente para uma direção, não vemos outras possibilidades, potencialidades e oportunidades. Não me arrependo porque era um caminho que eu tinha que passar. Nesse caminho, encontrei profissionais incríveis que preciso citar porque fizeram parte dessa minha mudança.

Nutricionistas incríveis passaram por mim e vivenciaram o que descrevi acima. Tenho que falar de Ana Carolina Icó que me falou de um certo curso. Ela disse: “Rô, você tem que fazer”. Se não me engano, foi em 2014 ou 2015. O curso era o de aprimoramento em transtornos alimentares do Ambulim do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq/HC/FM/USP). Eu já me identificava muitíssimo com a Nutrição Comportamental mas, juro, não entendia a não dieta. Veja bem, eu me formei em 1999. Se, hoje, ainda é muito difícil em entender, imagina com a minha formação! Essa indicação da Icó não saia da minha cabeça até que, no ano passado, me inscrevi. O curso se encerrou mês passado (julho, 2017).

O aprimoramento foi um ponto decisivo e sem volta. Em muitos temas, ele me deu a certeza que eu estava no caminho certo. Entretanto, ele me deu bases e ferramentas para entender, ou seja, foi um grande aprendizado sobre porque precisamos dizer não às dietas. São motivos que envolvem, obviamente, a relação com os alimentos, a insanidade que é acreditar que para comer tem que haver uma justificativa fisiológica/bioquímica/endócrina, a relação com o corpo, a aceitação corporal, o entendimento de como cada pessoa se alimenta e que cada pessoa tem o seu corpo único. Estereótipos do corpo gordo, do que é comer saudável, do que é saúde, do que é beleza devem ser questionados.

No Ambulim, presenciei atuações de nutricionistas que re-despertaram aquela paixão pela Nutrição porque tiveram dias que eu até duvidei se eu queria ficar na área da saúde.

Agora, eu preciso usar um outro jargão. É o “momento de me reinventar”.

Quero deixar claro aqui que não defendo ou sustento uma dieta, nem as que usam a tecnologia para isso. Quero deixar isso claro porque o que fazemos deixa rastros. Imagine você o quanto de conteúdo meu está disponível na internet. Tem muito texto, conteúdo de redes sociais, vídeos, chats anteriores ao meu novo posicionamento. Eu preciso colocar uma data para isso. Como até junho desse ano (2017), eu fazia conteúdo e estava presente em um programa de emagrecimento online, os conteúdos dessa data e anteriores podem não representar o que eu penso e como eu atuo. Por que “podem”? Porque há muitos outros que desenvolvi para o meu site e minhas redes sociais que já estavam alinhados de um ano para cá. Como disse, a mudança não foi repentina, então, você pode encontrar conteúdos meus que não estão alinhados com o meu atual posicionamento e com o meu pensar sobre a minha atuação. Se for de algum site que não seja o meu ou de uma rede social que não seja a minha, fique atento! Se você vir uma matéria com a data posterior a junho, 2017 dizendo que sou nutricionista de determinado site de dieta ou saúde, é uma informação incorreta.

Quero dizer algo muito importante: eu não oriento nem defendo nenhum tipo de dieta seja ela online ou não. Tampouco uma estratégia ou uma reeducação alimentar para emagrecer. Para saber mais sobre a não dieta, tem um texto meu sobre o assunto. Clique aqui e acesse-o. Mas, é fundamental eu dizer que sim, eu acredito na tecnologia e, sim, é importantíssimo o nutricionista atuar em tecnologia como, por exemplo, ter presença nas redes sociais e, também, em outros tipo de serviços que a tecnologia é a base. E, claro, essa presença do nutricionista tem que ser baseada na autonomia profissional; em um serviço onde o tema central é a Nutrição, esse profissional tem que ser consultado e ter poder de decisão sobre o conteúdo.

O texto já está longo. Sinto que eu precisava escrevê-lo. Como disse, são para as pessoas que me acompanham e perceberam a mudança. Se você quiser conversar comigo, ter algum esclarecimento, dizer algo; use as minhas redes sociais (Instagram: @nutrirobertastella | Facebook: /bemcomerbem) ou o meu email: [email protected]

2 Comments

  1. Parabéns Roberta! Já fui assinante de um site e fiquei viciada no aplicativo de contagem de calorias. Como sou ansiosa custei a me libertar e sair da compulsão. Gratidão pelo texto. Gratidão pela partilha.

    • Janaína, muito obrigada pela mensagem. Sites e aplicativos de contagem de calorias ou controle do que come devem ser deixados de lado em qualquer situação mas, se tem o diagnóstico de compulsão alimentar, você precisa deixá-los de lado para melhorar. Eu quem agradeço o seu comentário. Muito obrigada! <3

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