Roberta Stella | Nutrição comportamental, sem dieta e mais empática

fevereiro 20, 2017
por robertastella
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A restrição travestida de saúde e bons valores

Esse mês, a Vogue e a Veja Rio destacaram a prática do jejum intermitente em suas capas. Diferentemente do que seria, no mínimo, uma matéria para reflexão e discussão, essas chamadas não incentivavam o entendimento da melhor forma de se alimentar (!), mas, sim, eram tendenciosas mostrando o quanto essa prática alimentar “dá resultados” para emagrecer e para a saúde.

 

capa_vogue_vejario

Informações equivocadas e irresponsáveis presentes na mídia prejudicam a relação das pessoas com o corpo, com a comida e são gatilhos para o desenvolvimento de transtornos alimentares. Quem se importa?

 

Não é de hoje que as mídias exploram escandalosamente a alimentação com finalidades estéticas, dietas para emagrecer e para entrar em forma. Dá IBOPE, aumenta as vendas, os views, os likes e os compartilhamentos. Infelizmente, quem escreve está pouco se preocupando com a nossa saúde. A meta é de venda, faturamento, visualizações e seja lá qual for o número interessante para a empresa. Vejo a radicalização das chamadas, distorções de conceitos e pouca empatia com as pessoas que sofrem com a insatisfação corporal e uma relação transtornada com os alimentos. Eu poderia listar muitas outras consequências de informações tão ruins, tão banalizadas, tão sem responsabilidades que os veículos estão se dispondo a divulgar. E não percebem o perigo. E se percebem, sinceramente, não estão preocupados com o que está acontecendo com você ou com o que pode acontecer. Essa é a triste realidade. Zero empatia.

Você, caro leitor, é pego sorrateiramente. De tanto ouvir que jejum é bom, que tem não sei qual número de estudos comprovando os impactos positivos para a saúde dessa estratégia alimentar, você passa a acreditar. Isso se chama internalizar a informação. É aquele momento que, se antes você duvidava, agora, tem como verdade, é inquestionável. E vai o pobre nutricionista dizer cuidado que ela pode piorar a sua situação quando, na verdade, tantos outros defendem o jejum, médicos dizem que ele é ótimo para emagrecer!

Quero dizer aqui que, por mais que haja estudos suportando a afirmativa de que há evidências na melhora de indicadores de saúde (e não de estética, corpo magro para atender a um padrão de beleza), tenho que avisar que a vida não acontece em um laboratório e não é uma experiência altamente controlada. Não, não é!

As escolhas alimentares são complexas e extrapolam a questão metabólica e dos nutrientes. Isso diz respeito aos significados da comida, significados esses sociais (pense o quanto os alimentos unem as pessoas), religiosos (imaginem a mesa do almoço de Páscoa, da ceia de Natal), emocional (comer nos remete à momentos e pessoas importantes na nossa vida).

Entretanto, vivemos na era da restrição alimentar. Ela nunca foi tão vangloriada e quem a suporta nunca foi tão enaltecido. Quem faz jejum é alguém antenado com a restrição moderna, é cool e carrega todos os clichês e estereótipos que a dieta traz: tem força de vontade, é focado e determinado. Pela complexidade das nossas escolhas alimentares como dito anteriormente, comer vai além de pensar em nutrientes e processos metabólicos que acontece no corpo na ausência e na presença de comida.

Restringir alimentos e calorias, e jejuar na sua forma mais grave leva a comportamentos e sensações negativos. Fissura alimentar, negação da fome e vontade de comer, raiva, atitude do tudo ou nada, excesso alimentar e episódios compulsivos, culpa, pensamento de que precisa restringir ainda mais, dietas e jejum e, assim, como se fosse um loop que persegue a vida, é construída uma relação completamente distorcida e transtornada com os alimentos e com a alimentação.

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Dieta dá fome.

 

Nesse mundo tão restrito às contas, metas, valores morais tão pequenos e mesquinhos, e de pensar que a vida é o lifestyle fake (estilo de vida falso) que vemos nas redes sociais, deixamos de olhar para o sofrimento, algo proibido de ser falado e mostrado.

Quem já não sentiu que estava errado em sentir o prazer que um pedaço de bolo traz? Ou se sentiu errado, fraco em tomar um sorvete para aplacar o calor? Esse é o início do comer transtornado que é antecedido na crença de que a restrição é o caminho para a saúde.

No final, todos e tudo está transfigurado. Noção de saúde, valores fracos, o que é ter sucesso, para que devemos comer, o respeito pelo nosso corpo e pelas nossas formas.

Fica aqui um alerta: não consuma esse tipo de informação, fuja de uma alimentação baseada somente em nutrientes, no que disseram que era bom ou ruim, no que disseram que era saudável ou não. Você precisa voltar a questionar o que está interiorizado. Sem esse questionamento, você se torna presa fácil de mensagens simplistas, distorcidas ou limitadas a um único ponto de vista.

fevereiro 6, 2017
por robertastella
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Além da mensagem: redes sociais e informação sobre emagrecimento e alimentação | Parte 1

Primeira parte do vídeo, que converso com Daiana Garbin do canal Eu Vejo sobre mensagens que postadas nas redes sociais que incentivam mitos e internalizam informações que levam a uma relação ruim com o corpo e com a comida. É um convite para refletir além da mensagem que à primeira vista parece motivadora ou engraçada, mas reforçam hábitos e comportamentos inadequados com a comida, o corpo e a atividade física.

fevereiro 6, 2017
por robertastella
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Além da mensagem: redes sociais e informação sobre emagrecimento e alimentação | Parte 2

Segunda parte do vídeo, que converso com Daiana Garbin do canal Eu Vejo sobre mensagens que postadas nas redes sociais que incentivam mitos e internalizam informações que levam a uma relação ruim com o corpo e com a comida. É um convite para refletir além da mensagem que à primeira vista parece motivadora ou engraçada, mas reforçam hábitos e comportamentos inadequados com a comida, o corpo e a atividade física.

janeiro 23, 2017
por robertastella
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O problema da qualidade nas redes sociais

Comunicar saúde é uma das coisas mais difíceis de se fazer. Trabalho há 16 anos fazendo conteúdo, escrevendo para sites, blogs, Facebook e Instagram, além, de colaborar como fonte de diversas mídias. Não há um dia sequer que eu não reveja criticamente tudo o que já falei e me policio cada vez mais para não falar uma coisa quando queria dizer outra. É duro porque, apesar de eu acreditar que se uma única pessoa para e lê com atenção o que escrevo, isso já valeu muito a pena; há uma certa cobrança em querer impactar mais e mais pessoas. Só que, o meu valor é passar boa informação e não ter dezenas de milhares de seguidores, e quero muito, ingenuamente, preservar esse valor.

Falo isso porque há uma batalha que é travada silenciosamente pelos profissionais de saúde quando falamos de conteúdo para as redes sociais (falo aqui delas, mas, acredito que o apelo está sendo em toda forma de inserção na mídia). A corrida é para ter mais curtidas, comentários, seguidores e compartilhamentos; métricas essas que indicam engajamento e relevância. Há algum tempo se dizia (e ainda ouvimos isso) que métricas de engajamento e relevância indicam qualidade da informação. Assim, quanto mais seguidores tiver um perfil, maior será o retorno dele (no caso de venda de produtos, por exemplo). Quanto mais um post ou imagem for compartilhado, curtido e comentado, isso indicaria engajamento (envolvimento) e qualidade da mensagem que está sendo passada. Vejo, nesse pensar, até uma certa lógica para propagandas, análise de produtos e serviços, mas não quando falamos em qualidade da informação de saúde para os cidadãos comuns.

Só que, vale lembrar, para chamar atenção de empresas que anunciam produtos e para chamar a atenção de pessoas que não sabem discernir ou diferenciar uma boa informação de uma péssima informação, a qualidade é jogada no lixo. Chamadas muito mastigadas, prontas para serem engolidas e digeridas e que, caro leitor, vão saber te pegar certinho pela curiosidade ou pelo senso comum, pecam muito pela qualidade, e são essas chamadas e textos que você vai curtir, compartilhar e comentar nas suas redes sociais.

Profissionais de saúde estão passando péssimas informações pelas redes sociais. Fomentam ou incentivam comportamentos inadequados, restrições alimentares, disseminam mitos que, no final, irão prejudicar o seu senso crítico. Você se sente confuso, não sabe o que é certo e o que é errado, se sente em um beco sem saída. Tenho certeza que, a maioria dos usuários dessas redes sociais, vai decidir seguir aquele perfil de profissional que tem mais seguidores, mais curtidas, mais compartilhamentos, mais comentários, maior engajamento, maior relevância e, na maioria das vezes, péssima qualidade pensando que números grandes indicam qualidade do conteúdo.

Veja o exemplo abaixo que achei ontem no Instagram:

comida_drogaNutricionista classificando a comida como droga. Se há alguém com ansiedade, a imagem diz que usará essa droga para combate-la. Vamos conversar sobre ansiedade e comida: muitas vezes, não sabemos identificar e entender a ansiedade e tantas outros emoções. É um grande desconforto emocional para a pessoa que convive com ela. Como fuga ou até como conforto, a comida é usada para não vivenciar o desconforto que a ansiedade traz – nem que seja por alguns minutos. No texto, abaixo da imagem, a profissional diz que a comida irá aumentar a compulsão. Episódios compulsivos têm como gatilho a restrição alimentar. O raciocínio é: eu não como porque alguém disse que comida é uma droga, nego a vontade, vem a fissura que culmina com o episódio compulsivo. Então, essa profissional erra 2 vezes: 1. chamando a comida de droga o que, aliás, coloca o terror em cima da comida) e 2. Comer leva a compulsão alimentar quando, na verdade, a restrição que ela incentiva que levará.

Mas, não termina aqui. Ela ainda diz que o exercício é o remédio para a depressão. Atividade física é excelente e indicada para melhorar a sintomatologia da depressão, ou seja, ameniza os sintomas, mas não é remédio que cura a depressão.

No meu entendimento, esse post é um grande, enorme desserviço distribuído por uma nutricionista. Fico me perguntando: o que profissionais assim ganham com isso? Seguidores? Curtidas? Vale a pena esse efeito colateral tão devastador que é não informar, que é prejudicar a relação que já anda tão transtornada com os alimentos?

Por isso, querido leitor, ligue o seu botão do senso crítico. Sei que há desânimo geral e queremos respostas fácies de serem digeridas e passamos a acreditar em informações cheias de frases de efeito, mas que só trazem prejuízos.

A filósofa Márcia Tiburi, nesse video aqui, fala sobre um “fenômeno na nossa época, que é o fato que as pessoas, hoje em dia, estão tendo uma experiência impressionante com respostas prontas porque se a gente pensar bem, quando a gente encontra uma resposta, se a gente está vivo do ponto de vista cognitivo, se a gente ainda está inteligente, a gente pergunta em relação àquela resposta que veio pronta”. Ela vai além, questionando: “o que será que está havendo com a nossa vida cognitiva, hoje, com o nosso pensamento atual, para gente aceitar tão fácil tanta resposta pronta?”. O vídeo é longo, mas, calma! Esse trecho são os seis primeiros minutos. Veja que é bem interessante.

Por isso, o alerta é: leia, faça perguntas, busque o pensar de outros profissionais, diferentes condutas, pesquise em sites de saúde como Ministério da Saúde, Organização Mundial de Saúde, associações de saúde e conselhos. Perguntando, você vai sair da superficialidade e terá melhor entendimento do tema. Claro, se você percebe que há algo que precisa ser trabalhado em você, faça uma consulta presencial.

dezembro 5, 2016
por robertastella
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Foco, fé e força de vontade: a culpa não é sua

Neste post, resolvi falar sobre isso:

Quem frequenta redes sociais já viu musa fitness, muso da mahamudra, quem quer emagrecer, quem quer ficar sarado, nutricionistas, médicos e seja lá quem for com esse discurso fraco e superficial que – disfarçado de motivação – acaba com a autoconfiança de qualquer um.

Foco, fé e força de vontade para quê?

Aqui posso ser bem rápida: para seguir todas as regras.

Não pode comer doce. Pode comer quinoa. Não pode comer pizza. Pode comer pizza feita em casa e tem que trocar a farinha de trigo por couve-flor triturada.

Percebe?

E quando o objetivo é emagrecer é quase inevitável cair nessas regras. O que posso comer? O que é saudável? O que emagrece? O que engorda? Quando devo comer? Quando devo me pesar? Em quanto tempo vou emagrecer?

Todas as respostas somente trarão regras, regras e mais regras.

E quando quebramos a regra? O que sentimos? Frustração, fracasso, tristeza, sensação de incapacidade. E quando isso acontece, vocês entendem que nos culpamos por não ter conseguido ser fortes o suficiente para seguir as regras? As regras são quebradas em algum momento. Isso é certo! Mas, ao invés de questionarmos essas regras, passamos a nos julgar incapazes e elas, as regras, acabam com a nossa autoconfiança.

Digo que focar mais ainda nessa regra só vai trazer mais prejuízos. Fé não adianta (pelo menos para emagrecer) e, a pouca força que nos restar deve ser usada para outra coisa.

Para que então?

Para ouvir os sinais do seu corpo. A que hora comer? Ouça quando o seu corpo diz que está com fome. Que momento parar de comer? Perceba o corpo dizendo que o estômago não está mais vazio e que está no momento de parar.

Posso comer bolo? Eu pergunto: como você come o bolo, hoje? Em qual momento seria o ideal? Qual a quantidade mais adequada?

Tenho que comer frutas? Eu questiono: quantas frutas você come diariamente? Tem alguma fruta preferida? Você acha que precisa melhorar? Como você pode melhorar?

A resposta está em você. Talvez seja necessário direcionamento, ajuda, apoio para que você encontre o SEU caminho e as SUAS respostas.

Como fazer?

Estabeleça metas. Mas metas não são regras?

Nãaaaao!! Regras são impostas e inflexíveis. Não mostram o quanto você evoluiu.

Metas são ajustadas, são estipuladas de acordo com o que você julgar mais adequado e, principalmente, são possíveis. Metas mostram progresso mesmo se você não atingir o objetivo final.

E para saber as suas metas, você precisa avaliar como está e onde pode melhorar. Um passo por vez.

novembro 29, 2016
por robertastella
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A busca pelo corpo perfeito

Cada época tem o seu padrão de beleza. Culturalmente, somos levados a entender que o corpo traz aceitação, mostra uma personalidade mais positiva, é sinônimo de sucesso, desejo e capacidade de realizar. Mas não é qualquer corpo. É o corpo idealizado e que se encaixa dentro dessa padrão. Como quebrar esse pensamento? Será que o corpo idealizado ou perfeito não é baseado em um padrão de beleza extremamente excludente? Nesse vídeo, eu e a psicóloga Flávia Scavone falamos sobre as consequências de acreditar que o corpo é fonte de felicidade, sucesso e desejo.

Transcrição do vídeo

Roberta (nutricionista): Oi, pessoal! Tudo bem? No vídeo passado, a gente falou muito sobre regras em relação à alimentação. E, a gente, aqui, eu e a Flá conversando, né, a gente começou, né, a conversar sobre a regra do corpo que a gente deseja ter, né. Porque, culturalmente, né, o corpo magro, ele é visto como o bem sucedido, né, o que tem atitudes positivas, né. E, muitas vezes, em busca desse corpo que a gente diz perfeito, que é o padrão, né, de beleza.

Flávia (psicóloga): Que a gente tem que ter, né. Ter que é a regra. A gente tem que ter esse corpo.

Roberta (nutricionista): Exatamente, né. Pra ser bem sucedido, pra ser desejado, né. É, a gente passa a buscar restrições excessivas na alimentação. E, muitas vezes, são restrições que a gente não consegue, é, suportar por um longo período. Não somente durante o processo de emagrecimento, Flá, mas, também, quando atingir o objetivo que tá se estipulando muito restrito, né. Então, se… Vou dar um exemplo aqui. Eu peso 100 quilos e desejo pesar 60 quilos, esses 60 quilos, pra eu manter, vai me impor uma restrição, talvez, que eu não consiga… não é natural, nem do corpo, né?

Flávia (psicóloga): É um sofrimento muito grande.

Roberta (nutricionista): É um sofrimento muito grande, né. E tem muita gente se propondo a fazer essas loucuras, até, que a gente chama, né, em relação à alimentação. E, Flávia, eu gostaria muito que você falasse sobre isso porque é algo imposto culturalmente, né, que a gente acredita que quando a gente chegar lá a gente vai ser mais bem sucedido, a gente vai ser mais feliz, né, a gente atinge aquele sonho, né? Como lidar com isso? Porque, muitas vezes, a gente chega lá e não é bem assim!

Flávia (psicóloga): Pois é… Eu falo, eu uso muito uma analogia pra gente entender o que acontece em relação à imagem corporal que são aqueles dias em que a gente acorda e se olha no espelho e nada do que a gente coloca fica bom, né. Todo mundo tem um dia desse ou, ao contrário, né, às vezes, no dia seguinte a gente acorda e se olha no espelho e a gente se adora, né. A gente adora aquilo que a gente tá enxergando mesmo estando com o mesmo peso de um dia pro outro. Por que? Porque aquilo que a gente vê no espelho nem sempre condiz com a imagem concreta e real, né. A imagem no espelho, ela é recheada, ela é muito influenciada pelas nossas emoções, tá. Então, muitas vezes o que acontece é que a genta tá passando por uma fase difícil, tá passando por alguma insatisfação, conflito existencial, é uma dificuldade qualquer, não tá se sentindo bem, né, não tá feliz. E quando a gente se olha no espelho, a gente acha que o problema tá no corpo que a gente tem. Tá? Então, aí, eu acho que toda essa cultura do corpo magro associado ao sucesso faz com que a gente, também, é, é vá por esse raciocínio. Então, peraí! Se eu to infeliz, se eu tô desconfortável, se eu tô angustiado, provavelmente, a culpa é desse corpo que eu tenho. Então, o corpo acaba levando a culpa de tudo. E aí, nessa hora, a gente acaba buscando emagrecer acreditando que, se ficar mais magro, tudo será resolvido. Só que doce ilusão a nossa, né! Eu acho que da grande maioria das pessoas quando elas vão percebendo que chegando perto desse peso ideal, a vida não mudou tanto assim ou aqueles problemas não foram solucionados depois de uma dieta. E muitas vezes o que acontece, Roberta, é que nessa hora, é que o reganho de peso também começa a acontecer porque se eu fiz todo esse esforço e a minha vida continuou cheia de problemas ou com dificuldades ou eu ainda nao me sinto bem dentro da minha própria pele que, eu acho, isso é importante a gente entender, é, então, não vale a pena, então, eu vou voltar a comer tudo o que eu comia antes, né. Então, eu acho, né, é mais uma questão… muitas vezes, a gente confunde muito o que que é o corpo ideal ou aquele corpo que dentro dele eu consigo me sentir em paz, né. Isso é muito mais uma questão existencial, emocional do que física.

Roberta (nutricionista): É… e eu acho interessante, né, que, culturalmente, o que vendem pra gente como a felicidade é o corpo, é você estar com o corpo bem magro. Não é nem magro, é beeem magro.

Flávia (psicóloga): É verdade. O padrão tá cada vez mais exigente.

Roberta (nutricionista): … mais exigente. Agora, as meninas têm ter o abdômen bem definido, né? É, e como se aceitar, perceber que “esse padrão não é o meu, esse padrão é muito restrito, não me cabe”, mas se aceitar, né, é numa forma um pouco maior do que esse padrão que, culturalmente, está sendo imposto, né. Como trabalhar isso?

Flávia (psicóloga): Eu acho que tem muito a ver com aquele vídeo, né, o nosso vídeo anterior sobre regras em relação à alimentação. Eu acho que a gente só vai conseguir fazer isso quando a gente começar a usar como referência o nosso bem estar e não ou o que é estabelecido socialmente. Então, onde eu me sinto, realmente, bem, né? Aquela conversa honesta que a gente tem que ter com a gente mesmo de que, “peraí, qual é o tamanho em que eu fico confortável? Por mim, né, e não em comparação a outras pessoas”. Então, é o que você falou, às vezes, eu emagrecendo 10 quilos ao invés dos 40, né, que você deu como exemplo, eu já tô saudável, né, os meus índices já estão bons, eu já tô me sentindo disposta, eu não preciso emagrecer os outros 30, se eu não quiser, né. Se, realmente, isso não for necessário pra mim, só se eu quiser me encaixar neste padrão.

Roberta (nutricionista): É… e, muitas vezes, chegando, talvez, nesse exemplo nosso, né, de, ao invés de emagrecer 40, emagreceu 10, vai perceber que não é o peso que ela quer mudar, “eu quero mudar outra coisa, ou é a atitude, sei lá eu”.

Flávia (psicóloga): Do jeito que eu me imponho. O que eu busco, o meu objetivo de vida, o que tá faltando pra mim? Que vazio é esse? Da onde vem? É uma outra construção mesmo que a gente faz. E o mais interessante, pessoal, é que a gente lida muito com pessoas e a gente sabe disso, que, muitas vezes, uma pessoa que está muito acima do peso não imagina, é que a própria pessoa que está sempre sendo muito radical com o próprio corpo, que faz dietas muito rígidas, que quer aquele corpo muito perfeito, é a pessoa que mais sofre. Porque ela nunca tá satisfeita! E é daí que tá a base de muitos transtornos alimentares. Então, pessoal, ela já tá magra, ela já tá com a musculatura, mas ela não para porque ela nunca se sente bem o suficiente. Então, qual é o ponto de toda essa batalha, né? Se eu sofro tanto pra continuar me sentindo mal, né?

Roberta (nutricionista): É. E não projetar pra nossa vida o que a gente vê no outro ou na capa de revista, né, porque você olha a capa de revista tá cheia de Photoshop, né. É, acho que nem as modelos se reconhecem quando olham a capa de revista.

Flávia (psicóloga): Eu acho, eu vou além ainda, hein, Rô. Acho que muitas vezes a gente vê a capa de revista e acha que aquela pessoa é super feliz…

Roberta (nutricionista): Exatamente!

Flávia (psicóloga): Super realizada… e nem sabe o que tá acontecendo na vida dela! Então, é a gente, realmente, tentar colocar isso nas devidas proporções. Entender que isso, também, é uma regra que não deveria ser, assim, tão aceita.

Roberta (nutricionista): Tão imposta, também, né? A gente sempre questionar, né? Eu acho que a gente, o grande, a coisa mais bacana quando a gente fala, também, de saúde e isso tá muito inerente quando a gente fala de emagrecimento, é questionar tudo o que a gente lê, né. Porque o que tem mais sendo distribuído por aí são meias verdades, viu? No meio de tantas meias verdades, tem mais mentiras do que verdades. Então, fiquem atentos! Acho que é isso, né, pessoal? Bem, eu termino aqui agradecendo vocês por estarem aqui assistindo a esse vídeo. É, e até o próximo, né?

Flávia (psicóloga): Isso aí! Deixem suas perguntas e comentários! E a gente se encontra no próximo vídeo!

Roberta (nutricionista): Tchau, pessoal!

novembro 24, 2016
por robertastella
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Quebrando as regras da dieta

As dietas são baseadas em várias regras, ditando o que comer e quando comer. Entretanto, por serem regras rígidas facilmente são quebradas e isso traz alguns sentimentos como desânimo, frustração e sensação de que nada funciona nas tentativas de emagrecimento. Nesse momento, percebe-se a necessidade de aumentar o autoconhecimento para buscar a melhor alimentação que atenda as necessidades não somente nutricionais mas, também, as preferências e os prazeres que os alimentos proporcionam.

Transcrição do áudio

Flávia (psicóloga): Olá, pessoal! Sejam bem-vindos ao canal! Hoje, a gente vai conversar um pouquinho sobre regras, né? Principalmente, na área de Nutrição, quando a gente pensa em emagrecimento mas, também, quando a gente pensa em melhorar a qualidade de vida, a coisa que a gente mais vê, por aí, são regras do que a gente “tem que” e do que a gente “não pode” fazer. E a gente vê muito isso no dia-a-dia, as pessoas extremamente angustiadas, buscando nos profissionais essa orientação que deixa de ser só, né, Roberta, uma orientação mais ampla, e passa, né, as pessoas tendem a buscar limites, eu vejo, né. Se a pessoa não dá pra ela, exatamente, o caminho de como ela tem que seguir, essa pessoa acaba ficando muito angustiada. Eu queria saber, Roberta, o que você acha disso? O que isso acaba trazendo pra, pro desenvolvimento de uma, de uma outra forma de se alimentar?

Roberta (nutricionista): É, eu acho que, primeiro, é interessante a pessoa ter uma orientação, né, e como adaptar essa orientação pro que ela vivencia, as… a rotina dela, como ela quer se alimentar melhor, né? Então, eu vou dar um exemplo, aqui, que, talvez, fique mais claro, né? Que é, por exemplo, comer de 3 em 3 horas. A gente sabe, hoje, que essa regra caiu, não é necessário mais comer de 3 em 3 horas.

Flávia (psicóloga): Ou não tem mais aquele, né, ou aquele ganho metabólico que a gente achava.

Roberta (nutricionista): Exatamente.

Flávia (psicóloga): De comer de 3 em 3 horas.

Roberta (nutricionista): Exatamente, exatamente. Mas, por exemplo, talvez seja interessante, fazer mais do que as 3 refeições principais, até pra, uma forma de prevenir um excesso alimentar em alguma refeição, ok?

Flávia (psicóloga): Tá.

Roberta (nutricionista): E, aí, é importante a pessoa perceber, ela olhar pra ela, ter a percepção da fome que, inicialmente, a fome tem que reger, né, a gente já falou aqui sobre isso, o momento da gente começar a comer, na maioria das vezes, no nosso dia-a-dia, e estabelecer os horários pras refeições. Então, não é necessário (comer) de, 3 em 3 horas, mas seria interessante, talvez, colocar mais de 3 refeições principais, até pra prevenir um excesso alimentar me algum momento do dia, né. Então, acho que, é, ter essa, eu acho muito importante, as pessoas terem essa orientação. Mas, ao mesmo tempo, cada pessoa é uma pessoa. Cada pessoa tem uma rotina, cada pessoa tem uma relação com os alimentos, os alimentos têm significados, né, então, eu acho importante a pessoa perceber qual será a alimentação melhor pra ela, né? E eu sempre gosto de fazer uma analogia que, normalmente, as regras é uma caixinha que a gente vai entrar dentro da caixinha. E, na alimentação, é a alimentação que tem que se adaptar a como eu vivencio, os significados dos alimentos na minha vida, né? Outro exemplo, talvez, que eu possa dar, é a regra do “pode” ou “não pode”, né?

Flávia (psicóloga): De alimentos proibidos e permitidos. Saudáveis ou não saudáveis!

Roberta (nutricionista): De alimentos proibidos e permitidos. Saudáveis ou não saudáveis.

Flávia (psicóloga): O pessoal fala, hoje, eu ouvi!

Roberta (nutricionista): Exatamente! Então, assim, se o bolo não é saudável, mas o bolo, pra mim, tem um significado e é importante tá na minha rotina, quando eu estou, tem uma regra que não pode o bolo, isso vai me trazer uma frustração, né, isso vai ter uma consequência pra mim. Então, eu posso comer o bolo, mas em que momento eu vou encaixar esse bolo na minha alimentação.

Flávia (psicóloga): E dependendo do que eu quero.

Roberta (nutricionista): Exatamente.

Flávia (psicóloga): Na vida, se eu quero emagrecer, talvez, eu tenha que comer uma quantidade menor.

Roberta (nutricionista): Uma quantidade menor, uma frequência menor, né?

Flávia (psicóloga): Mas nada é proibido.

Roberta (nutricionista): É. E, aí, Flávia, eu jogo, também, pra você, né! Por que as pessoas buscam tanta rigidez, né? Ter esse caminho, né, que parece um canal, todo mundo entra e vai andando.

Flávia (psicóloga): Eu acho que ainda vai gerando mais insegurança, porque, hoje em dia, ainda mais na área da alimentação, toda hora sai alguma coisa diferente.

Roberta (nutricionista): Ah, é verdade

Flávia (psicóloga): Uma coisa nova, regras novas. Acho que isso deve gerar uma insegurança muito grande.

Roberta (nutricionista): Uma confusão.

Flávia (psicóloga): Uma confusão! Chega uma hora que a gente não sabe mais o que segue. É, eu acho que o que acontece, Rô, é que a gente tem pouco treino, é, de olhar pra dentro e buscar o nosso próprio caminho. Né, então isso, a gente tá muito acostumado a, desde pequenininho, né, de seguir caminhos vindos de fora. Então, a gente, é, eu brinco, muitas vezes, que a gente virou a sociedade dos manuais: então, a gente tem o manual pra criar filho, manual pra usar redes sociais, manual pra se vestir, manual pra ter o corpo x. E aí, a gente, né, manual pra ter sucesso na profissão. Então, a gente tá sempre lendo alguma coisa a respeito de como a gente deve agir pra alcançar um determinado objetivo. Só que quando a gente faz isso, o que a gente não percebe é que a gente tá tentando encaixar regras que serviram pra outras pessoas.

Roberta (nutricionista): Muito bacana isso (esse pontos de vista).

Flávia (psicóloga): Na nossa vida, né. E, às vezes, não é que as regras são ruins, mas elas serviram, sei lá, pra um tipo de personalidade específico, pr’aquela pessoa que bolou aquele livro, aquela palestra, sei lá, e deu certo, né. E acho que é até por isso que existem tantas dietas. Acho que tem pessoas que se adaptam super bem, sei lá, a uma dieta sem carboidratos, tem pessoas que se adaptam à sem gorduras. Depende de quem a gente é e de como a gente vive a nossa vida. Então, a gente tem pouco treino nesse exercício de olhar pra dentro e saber quem a gente é, o que cabe, né, na nossa vida. Quais são os limites porque a gente aguenta, do que a gente quer passar, como a gente quer viver. E, aí, essa falta de autoconhecimento é que faz com que a gente, desesperadamente, busque regras do lado de fora.

Roberta (nutricionista): Uma coisa que vem até à minha cabeça, Flávia, é, qual é o custo da pessoa de abrir mão da regra, né? Porque é, às vezes, pode ser muito doloroso, né, o autoconhecimento, né. Não sei se eu tô…

Flávia (psicóloga): Você está falando… Acho que ela pode ficar um tanto angustiada, né?

Roberta (nutricionista): Exatamente.

Flávia (psicóloga): Dá, dá uma sensação de insegurança. Quando você fala pra pessoa, por exemplo, então, aprende a comer quando você tem fome, muita gente fica desesperada quando ouve. “Como assim? Eu nem sei o que é fome! Vou sair comendo tudo! Vou explodir!”. E não, eu acho que dá uma, acho que a pessoa, normalmente, tem um certo medo, né, que nem a gente, né, você vê uma criancinha aprendendo a andar a gente tem que ir amparando aquela criança até uma hora que ela vai conseguir dar os passos sozinha, vai cair, vai errar. Eu acho que quando a gente é, quer começar a viver de acordo com o que é bom pra gente, a gente tem que se permitir, errar, fazer coisas que não vão dar certo porque isso é que vai fazer a gente entender qual é o nosso caminho, olhar pro passado, mas eu acho que a gente tem que ir vencendo mesmo essa insegurança porque, senão, a gente fica pulando, né, de galho em galho e dificilmente a gente vai encontrar alguma coisa que se encaixa exatamente na nossa vida.

Roberta (nutricionista): É, então eu acho que pra quem aí já fez várias dietas e tá, muitas vezes, frustrado mesmo, com aquela sensação de que nada funciona, né, fazer, talvez, uma reflexão, né, já olhou tanto pra fora, tanto pra essas dietas, às vezes, sabe de cor todas as dietas, pra começar a olhar pra dentro e falar como eu posso ser melhor, né, ajudar a minha alimentação a se encaixar dentro do que eu sou, né. Apesar que, né, o alimento é uma questão de identidade mesmo, né. Então é isso, pessoal.

Flávia (psicóloga): Ter coragem de experimentar, né, Rô?

Roberta (nutricionista): Muita coragem, né! Não é tão fácil assim, mas é completamente possível!

Flávia (psicóloga): Acho que vale até, né, antes de a gente terminar, falar sobre o que a gente estava conversando um pouquinho antes da gente começar a gravar, a diferença entre o que é uma regra e o que é uma orientação, né, Rô?

Roberta (nutricionista): Exatamente.

Flávia (psicóloga): Eu? (risos)

Roberta (nutricionista): É! Pode falar. (risos)

Flávia (psicóloga): Então, a gente estava aqui conversando, justamente, que orientar é você dar, mais ou menos, uma direção, mas o caminho exato que a pessoa vai percorrer é ela, né, quem vai trilhar. A regra te dá pouco espaço, né, pra experimentar um caminho diferente.

Roberta (nutricionista): É, eu acho que aí se encaixa bem o (comer) de 3 em 3 horas. Tem pessoas que vão se adaptar (em comer) de 3 em e horas, ok, mas outras pessoas, não, né. Às vezes, de manhã tem que comer, né, depois de uma hora e meia do café da manhã, mas, à tarde, depois de quatro horas do almoço, né. É isso aí, pessoal.

Flávia (psicóloga): Ok, então. A gente queria agradecer aqui a presença de vocês no vídeo, espero que vocês tenham gostado. Deixem suas dúvidas, os seus comentários.

Roberta (nutricionista): É se inscrevam no canal!

Flávia (psicóloga): Ok, pessoal. Até o próximo vídeo.

Roberta (nutricionista): Tchau, pessoal!

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