Roberta Stella | Nutrição sem dieta

Gordos, magros e obesos – uma história do peso no Brasil

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Os significados do corpo são uma construção social que influenciam os fatores econômicos, políticos e culturais. O entendimento de que a forma e o volume corporais como indicação de saúde é muito recente, datando, no Brasil, a partir de 1950 com o desenvolvimento de políticas públicas de saúde, dos direitos dos trabalhadores e, também, do conhecimento científico da Nutrição e saúde. Em seu livro Gordos, magros e obesos, a historiadora Denise Bernizzi Sant’Anna revela como era o entendimento do volume do corpo desde pouco antes da proclamação da República até os dias atuais.

No livro, é mostrado como um corpo gordo, antes sinônimo de sucesso, fartura e saúde, passou a ser interpretado, exatamente, da maneira inversa: hoje, o gordo é visto como um corpo não saudável carregando o peso, não só da falta de saúde, mas, também, de outros estereótipos como dotado de fraqueza moral e intelectual.

Em um momento da história brasileira, houve o pavor em emagrecer, considerando que era uma época em que a desnutrição predominava junto com o medo de surtos epidêmicos de doenças que ocorreriam no início do século XX. Época em que ser gordo não era uma questão a ser problematizada.

Com revolução industrial, o corpo que permite o trabalho passa a ser visto como uma máquina e aquele que não consegue queimar adequadamente o combustível (comida) levando ao ganho de peso passa a ser visto como possuidor de uma falha. Ao mesmo tempo, com o surgimento das empresas de seguro, elas iniciam a demanda para categorizar o indivíduo de acordo com o peso para dizer quais estavam mais saudáveis ou menos.

Na primeira metade do século passado, há a propagação da ciência da nutrição “racional”. Os primeiros cursos de Nutrição são criados e a política começa a dar mais importância à alimentação, observada a partir da constituição de 1934 e dos programas de saúde do trabalhador e de merenda escolar.

A partir desse momento, a alimentação e o corpo passam a ter destaque na imprensa com a mulher sendo o alvo principal das matérias. A escolha das mulheres serem o principal personagem para ilustrar matérias e as propagandas partiu do estereótipo de que mulheres têm maior propensão em ganhar peso, principalmente, depois do casamento e da gestão, o que as tornavam inferiores aos homens.

É muito interessante notar a inversão que ocorre na percepção da forma do corpo. Anteriormente, a mulher com maior distribuição de gordura era valorizada, pois indicava que ela teria uma boa gestação. A partir da percepção do acúmulo de gordura ser patológico, a mulher passa a ser vista com um olhar diferente. E, a partir da difusão da balança, o machismo e o feminismo são expressos no controle da forma corporal. Inicialmente, a mulher com a conquista da sua autonomia tinha, no controle do peso, a expressão da sua liberdade por mais estranheza que isso possa causar nos dias de hoje.

Gordo, magros e obesos – uma história de peso no Brasil é uma leitura fundamental para entender a construção social e a abordagem do volume no corpo nas esferas cultural, política e econômica. Livro atual que aborda a moda, os jornais, revistas femininas, publicidade, políticas públicas, indústria de alimentos, a chegada dos fast food no país e a comida de rua, o desenvolvimento da literatura científica a a banalização da sua linguagem, e a internet e mídias sociais na disseminação do padrão ou ideal de beleza.

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