Roberta Stella | Nutrição sem dietas.

fevereiro 22, 2018
por robertastella
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Gordos, magros e obesos – uma história do peso no Brasil

Os significados do corpo são uma construção social que influenciam os fatores econômicos, políticos e culturais. O entendimento de que a forma e o volume corporais como indicação de saúde é muito recente, datando, no Brasil, a partir de 1950 com o desenvolvimento de políticas públicas de saúde, dos direitos dos trabalhadores e, também, do conhecimento científico da Nutrição e saúde. Em seu livro Gordos, magros e obesos, a historiadora Denise Bernizzi Sant’Anna revela como era o entendimento do volume do corpo desde pouco antes da proclamação da República até os dias atuais.

No livro, é mostrado como um corpo gordo, antes sinônimo de sucesso, fartura e saúde, passou a ser interpretado, exatamente, da maneira inversa: hoje, o gordo é visto como um corpo não saudável carregando o peso, não só da falta de saúde, mas, também, de outros estereótipos como dotado de fraqueza moral e intelectual.

Em um momento da história brasileira, houve o pavor em emagrecer, considerando que era uma época em que a desnutrição predominava junto com o medo de surtos epidêmicos de doenças que ocorreriam no início do século XX. Época em que ser gordo não era uma questão a ser problematizada. Continue Lendo →

fevereiro 5, 2018
por robertastella
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Resenha | A tirania das dietas. Dois mil anos de luta contra o peso. Louise Foxcroft

Ler o livro A tirania das dietas foi, para mim, um misto de curiosidade, surpresa e desconforto.

Um corpo não é somente um corpo por mais que desejaríamos que assim fosse. Um corpo está inserido em uma sociedade que dita regras de convívio e os significados político e cultural que ele representa. Um corpo não diz somente sobre um indivíduo, mas ele pode representar o que é o coletivo em que ele está inserido.

A autora Louise Foxcroft escreve: “Nosso corpo não apenas é inevitável, mas também o que a sociedade diz sobre ele, e o que consideramos “natural”, na verdade, é socialmente construído“.

Historiadores, filósofos e médicos da Antiguidade como, Galeno, Sócrates e, claro, Hipócrates ditaram regras alimentares e, até, comportamentos compensatórios como, por exemplo, a indução do vômito ou uso de laxantes para combater o corpo gordo já que comer tinha relação com a moral e, na falta dela (ser gordo significava ser inferior moralmente), a sociedade sofreria. Portanto, o preconceito contra corpos grande e gordos tem raízes antigas e se acentua na era cirstã onde a abstinência e o jejum são glorificados e atalhos para a salvação. O corpo magro passa a ser considerado divino e, o corpo gordo, pecaminoso. Continue Lendo →

janeiro 26, 2018
por robertastella
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Beber água para enganar a fome? É errado sentir fome?

Uma relação muito ruim com a comida e a imposição de regras alimentares levam à dificuldade de entendimento dos sinais do corpo da fome e da saciedade. Essa falta de entendimento leva ao medo de sentir a fome que pode trazer sensações desagradáveis já que, por querer emagrecer, a fome surge como algo negativo e, também, leva às atitudes alimentares que irão prejudicar o emagrecimento.

A seguir, cito três dessas atitudes:

(1) Por achar que a fome é uma sensação ruim, comer pode ser acompanhado de culpa e raiva, principalmente, se a comida for aquela proibida pelas dietas como, por exemplo, doces e chocolates;

(2) Por ter medo de ter fome, previne-se de senti-la comendo antes dessa sensação aparecer, podendo levar, portanto, a uma quantidade Continue Lendo →

janeiro 19, 2018
por robertastella
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Cultura da dieta

É necessário falar sobre cultura da dieta para haver uma maior compreensão dos motivos que levam à decodificação ou interpretação de informações relacionadas à comida ou à maneira como nos alimentamos serem relacionados a aspectos morais da pessoa. Por que uma pessoa que se alimenta com restrições alimentares, comendo o que é julgado de certo ou saudável, é admirada, vista como uma pessoa de sucesso e exemplo a ser seguido? Ou, mesmo não sabendo sobre o hábito alimentar das pessoas, temos a imaginação de como elas se alimentam baseados somente na aparência física?

As interpretações morais da comida, representadas por alimento com ou ruim, estão relacionadas com o desenvolvimento de estereótipos e preconceitos do tamanho do corpo.

Os padrões que construímos na relação comida e moral tem como raiz diversos fatores como históricos, culturais, sociais e, até, Continue Lendo →

janeiro 12, 2018
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Por que não é falta de força de vontade abandonar a dieta

Quando alguém abandona a dieta ou quer se justificar por ter deixado a restrição de lado, são comuns frases como “eu não tive força para resistir” ou “me faltou força de vontade para me manter na linha”. Um dos efeitos colaterais de qualquer restrição é sempre dar a sensação de que é uma falha da pessoa que deixou a dieta de lado e jamais mostrar que qualquer dieta está fadada a dar errada. Se tem alguma falha, ela é inerente à restrição alimentar ou à dieta.

Apesar do Homem estar na Terra há centenas de milhares de ano, uma característica não sofreu alteração até os dias de hoje: o corpo lança mão de todos os recursos para preservar a vida quando percebe que está em situação de risco. Vale lembrar que em qualquer restrição alimentar, o nosso organismo entende que não há disponibilidade de alimentos e, portanto, precisa usar recursos para que o corpo não definhe, não se desgaste excessivamente e, assim, ele preserva as funções vitais para manter-se vivo.

Isso explica o porquê da maioria das pessoas que fazem dieta recuperarem o peso. Simplesmente porque, Continue Lendo →

janeiro 1, 2018
por robertastella
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3 maneiras de cuidar da saúde sem precisar fazer dieta ou emagrecer

Emagrecer pode levar ao pensamento equivocado como sendo uma atitude de cuidado com a saúde. Apesar da maioria das pessoas ter o discurso de querer emagrecer por causa da saúde, o que se esconde são crenças construídas para chegar próximo a um padrão de beleza imposto culturalmente e aceito socialmente. Por exemplo, ter uma boa auto-estima sobrevive a qualquer forma de corpo, mas muita gente diz que quer emagrecer para melhorar a auto-estima o que seria uma justificativa de saúde e não de ideal de beleza para emagrecer.

Outros motivos falhos para emagrecer que são enumerados estão melhorar ou prevenir o colesterol alto, cuidar ou controlar a glicemia sanguínea e ter mais disposição física para fazer as atividades do dia a dia. Entretanto, para todas essas justificativas em defesa de emagrecer fazendo dieta há uma alternativa mais eficiente de atingir o objetivo Continue Lendo →

outubro 3, 2017
por robertastella
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A comida baiana de Jorge Amado

Ir à Bahia nos leva a uma viagem muito além das praias e do centro histórico. Visitar Salvador é uma excelente oportunidade para conhecer a comida baiana, do acarajé e abará às diversas moquecas e ao pudim de tapioca.

No café da manhã, banana da terra cozida, mandioca e cuscuz de milho. Muito coco e leite de coco nas preparações. Um acarajé genuinamente baiano todos os dias para guardar o sabor na memória. E não é somente o bolinho de feijão frito no azeite de dendê. É o vatapá, o caruru, o tomate verde e o camarão seco, tudo bem temperado com uma boa pimenta. A boca ficou anestesiada, diferentemente das papilas gustativas e das glândulas salivares que deixavam a boca preparada para tantos sabores, texturas e cheiros (sim, o cheiro do dendê no ar já faz a gente salivar!).

No meio de tanta riqueza gastronômica, em uma tarde, fui conhecer a Casa do Rio Vermelho onde Jorge Amado e Zélia Gattai viveram por quase 40 anos. Alí, naquela rua Alagoinhas, número 33, esperava encontrar o cotidiano fascinante de um dos maiores nomes da literatura brasileira e baiana. Como diz o cartaz na entrada “se for da paz, pode entrar”. Entrei.

Casa do Rio Vermelho de Jorge Amado e Zélia Gattai

Casa simples, bem simples, mas de uma riqueza cultural infinita. Não há luxo no mobiliário, mas as histórias contadas de pessoas que passaram e se hospedaram nela me fizeram querer voltar no tempo. Salas, quartos, biblioteca. Quando cheguei nas cozinhas (sim, são duas cozinhas na casa de Amado e Gattai), eu quis registrar. Das poucas fotos que tirei, achei essencial registra-las porque elas representam não somente a cozinha trivial de um casal, mas a reunião de amigos e, também, o alimento dos personagens dos livros de Jorge Amado. Aliás, uma literatura permeada pelos sabores com personagens caracterizados pela comida e temperos baianos.

Por ser uma literatura tão rica em comida, a filha de Jorge Amado, Paloma Amado, escreveu o livro “A Comida Baiana de Jorge Amado”, além de “As Frutas de Jorge Amado”. Segundo Paloma, “aprende-se lendo Jorge Amado que comida não é feita somente para alimentar: ela dá prazer ao ser vista, saboreada, cheirada e, sobretudo, é possível sonhar com ela, pois não se sonha só imagem, sonha-se cheiro, gosto e fartura”.

Saí de lá com a certeza de que valeu o passeio e com a vontade de devorar os livros de Jorge Amado e a culinária de seus personagens contadas por Paloma Amado. Enquanto isso, deixo aqui registros desse canto da casa tão especial que compartilho com você. Se for à Bahia, coloque no roteiro a Casa do Rio Vermelho que, infelizmente, parece ainda ser um passeio “alternativo”para os turistas que visitam aquela cidade. Estique o passeio, desça até o Largo de Santana e se delicie com o famoso e delicioso acarajé da Dinha.

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Largo de Santana

O famoso acarajé da Dinha no Largo Santana.

setembro 18, 2017
por robertastella
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Sobre magros e gordos

Uma sombra ou crítica que acompanha os nutricionistas que dizem não às dietas é que eles fazem a defesa do corpo gordo o que, irresponsavelmente, incentivaria essas pessoas a ficarem doentes. Somente essa frase daria um outro texto no qual a “saúde em todos os tamanhos” ou health at every size (HAES) seria a argumentação para entender que ter um corpo gordo não significa, necessariamente, uma pessoa sem saúde. Pessoas que têm a ideia de que o risco é causalidade propagam um erro grave de interpretação de resultados estatísticos. É sabido que não são todas as pessoas com diabetes, hipertensão, doenças coronarianas ou cânceres que apresentam obesidade. Por isso, julgar o corpo gordo como doente ou que irá desenvolver alguma doença em algum momento é mais uma questão de estigma que o acompanha do que de embasamento estatístico-científico sobre saúde.

Por outro lado, e parece que é mais fácil entender quando é falado do corpo magro, não há a relação de que essa forma de corpo isenta essas pessoas da doença. Você deve conhecer pessoas magras que tem diabetes ou câncer ou hipertensão. Mas você sabe que não são todas as pessoas que tem alguma doença crônica, magras; muito menos, associa que aquelas que não estão doentes hoje, todas desenvolverão algum problema de saúde.

Agora, por que estar com o IMC acima de 25, instantaneamente, leva as pessoas a deduzirem que todas estarão com alguma doença crônica em algum momento da vida? Por que há a crença da relação de causalidade entre estar com excesso de peso e doenças sendo que a relação é de risco?

Assim, quando falamos sobre corpos, não se trata de estar a favor dos magros e contra os gordos ou, então, a favor dos gordos e contra os magros. Essa dicotomia em relação ao peso (magros e gordos) é criticada tanto quanto a dos alimentos (bons e ruins, saudáveis ou não).

A busca é pelo peso natural. Isso é muito importante entender porque, se há a manutenção de um peso baseado em restrições alimentares, esse peso não é natural. Isso significa que se você precisa “controlar” ou “maneirar” em algum determinado alimento durante a semana para se permitir “um pouco no final de semana” e isso te faz ficar dentro desse peso, a estratégia está errada e, provavelmente, esse peso não é o seu naturalmente.

No meio da frase acima, há muitos aspectos a serem entendidos como respeito aos sinais da fome e da saciedade, desenvolvimento da autonomia alimentar e deixar de lado o “fiscal” ou “policial” da comida que coloca sempre o papel julgador em ação. Entendendo todos os aspectos relacionados na escolha e na quantidade de comida ingerida, o peso é consequência.

Nesse momento, começará a entender que, talvez, aquele peso menor não é, naturalmente, seu. Talvez, aquele peso maior não é, naturalmente, o seu.

Percebe-se, então, que peso é consequência de atitudes alimentares. Se as atitudes alimentares são ajustadas para as mais adequadas, o peso que se chegará é o que é o mais natural para você.

Aí, vem o trabalho de aceitação corporal, principalmente, em uma cultura tão opressora para o corpo mais pesado, em aceitar o peso maior do que aquele mantido artificialmente com restrições alimentares. Perceba que digo mais pesado porque, muitas vezes, encontrar o peso natural não significa sair do magro para o obeso. A maior parte, fica dentro do IMC normal, talvez, no sobrepeso. Mas, hoje em dia, isso é tão opressor que é traduzido como gordo ou obeso.

Entender, também, que comportamentos mais adequados em relação à alimentação e ao maior movimento do corpo são os aspectos modificáveis que se relacionam com a melhoria da saúde e do bem estar. O peso não é um comportamento, ou seja, não é modificado por si só. O peso muda se atitudes em relação à forma de se alimentar são ajustadas. Por isso, peso não é objetivo e nem meta. Peso natural é consequência e, para atingi-lo, a caminhada é longa (bem mais longa que as dietas restritivas), mas é um trabalho libertador para aceitar o peso natural e, ao mesmo tempo, melhorar o bem estar.

agosto 16, 2017
por robertastella
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“Se é bom e gostoso, que mal tem?”

alimentos_superpoderesDetox, comida de verdade, receita fit, receita funcional, sem gluten, sem lactose, sem açúcar, sem conservantes, sem soja, sem leite. Ao comentar uma matéria e fazer algumas observações sobre esses tipos de alimento, deparei com a pergunta/reflexão: “se é bom e gostoso, que mal tem?”. Essa argumentação é muito simplista porque, apesar de concordar que a maioria desses alimentos não trazem prejuízo à saúde já que um alimento por si só não pode ser responsável por desenvolver uma doença ou, ainda, apesar de eu concordar que muitos deles são cheios de nutrientes importantes para a corpo – essas chamadas, comunicação, propaganda sem o respaldo da ciência, ou seja, sem o que chamamos de evidência científica (e abro parênteses para dizer que mostrar um artigo científico não significa que haja uma evidência científica suficientemente forte para relacionar os benefícios desses alimentos) podem levar a várias consequências:

1. Mudam a percepção de um alimento. Por exemplo: leite é um alimento típico de brasileiro, presente no café da manhã. Quem duvidar, basta ler o Guia Alimentar da População Brasileira. Sabemos que o leite é uma excelente fonte de cálcio e que a população brasileira já apresenta uma elevada prevalência de inadequação no consumo desse mineral. Passar a mensagem que alimentos e/ou receitas sem lactose são saudáveis (ou vice-versa) para uma população saudável beira a irresponsabilidade;

2. Relação com crenças, valores e desenvolvimento de mitos alimentares. Veículos de comunicação têm grande influência para mudar opiniões, construir crenças, valores e mitos relacionados aos alimentos;

3. Relação emocional com os alimentos. Condenar um nutriente ou alimento como o responsável pela má alimentação, estimular a restrição de nutriente ou alimento, propagar ideias e conceitos sem consenso leva à relação de culpa com os alimentos, à fissura alimentar e à transtornos alimentares;

4. Propaganda enganosa. Vender produtos e serviços que têm como apelo conceitos não embasados em evidências científicas é enganação, mentira e propaganda enganosa. Vale lembrar que nem tudo nessa vida tem evidência científica. Nesse caso, ficar atento ao conceito que está sendo vendido;

5. Acreditar que alimentos caros são melhores ou “mais saudáveis”. Todos clamam por mais “alimento de verdade” no dia a dia mas, tem muita gente (profissionais de saúde, blogueiras, empresas) vendendo alimentos industrializados e/ou com baixo valor nutricional e/ou caríssimos como sinônimo de saudável, além de comunicarem substituições de alimentos que podem ser inatingíveis para a maioria dos consumidores.

No meu pensar, muitos males têm ao se comunicar a alimentação de maneira distorcida, errada, com falta de embasamento, distorcendo conceitos. Todos que comunicam (e não precisam ser jornalistas para isso!), seja por meio de um rótulo de alimento ou usando a mídia (redes sociais, tv, rádio, revistas, jornais) precisam chamar para si a responsabilidade de educar (afinal, comunicar saúde é isso!) não abrindo mão da qualidade da informação. Se a comunicação é feita pela metade, a recepção da mensagem será distorcida.

agosto 7, 2017
por robertastella
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Quando eu trabalhava com programa de dieta online

Há algum tempo, tenho pensado em escrever esse texto. As razões para ele vão desde conversar com as pessoas que seguem o meu trabalho há anos e notam a minha mudança de posicionamento, opiniões e conduta e, até para eu deixar claro qual é o meu posicionamento sobre as dietas. Então, é um texto que divide a minha conduta profissional porque, nela, não pode haver meio termo, ou seja, a minha atuação profissional mudou.

Essa mudança que digo aqui não ocorreu do dia para a noite. Não foi de repente e tão pouco fácil de eu aceitar e entender. Assim, no meio dessa minha história profissional, tiveram altos e baixos, questionamentos que passaram a ser diários e quase torturantes. É aquela grande insatisfação que, talvez, você que lê esse texto já sentiu. Bem, é melhor eu voltar lá para o ano de 2000. No ano anterior, em dezembro de 1999, graduei-me em Nutrição pela Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP/USP). Já no mês seguinte, me vi frente a um grande desafio. Para mim, usando uma palavra muito usada atualmente, considerei inovador um nutricionista poder trabalhar dentro da área da tecnologia/conteúdo de internet.

E lá estava eu, recém-formada e com aquela vontade de revolucionar o mundo, típica dos jovens que saem da faculdade. Ficava imaginando o quão incrível era poder falar com muitas pessoas, saber que uma ferramenta (chat, por exemplo) levaria uma informação sobre Nutrição para centenas, milhares de pessoas ao mesmo tempo. E, assim, foi. Comecei respondendo emails em um site de receitas, fazendo chats para o maior portal do país. Amava o que eu fazia.

Eu participando de um chat em 2001.

Depois de muito trabalho, ficava claro que os usuários desse serviço não tinham dúvidas somente sobre como e o que cozinhar mas, muitos queriam saber sobre como se alimentar melhor. Percebida a demanda, no final de 2001, fiz parte do desenvolvimento do primeiro site comercial de dietas no Brasil. Em 2005, já com algumas questões sobre conteúdo de Nutrição e atuação do nutricionista na internet me fazendo olhar de outra maneira o conteúdo e o posicionamento desse tipo de serviço, deixo o trabalho e inicio o mestrado (2006), também, na FSP/USP. No final do 2006, retorno para trabalhar com internet. Adivinhem? Em um outro site de emagrecimento online.

Aqueles questionamentos, muito mal resolvidos em 2005, iriam me levar para algo que considero uma crise profissional. Cenário completamente diferente, demandas e objetivos que passaram a me fazer mais e mais perguntas sobre onde eu estava, o que eu queria e se realmente os meus valores e em que eu acreditava estavam sendo alimentados ou, simplesmente, passei a remar contra a forte maré. Já era 2014 e, simplesmente, precisava acabar com essa luta interna e, também, com algo que iria seguir um rumo que eu tinha que aceitar que não seria o que eu acreditava ser o melhor para a minha atuação profissional e, também, para quem tinha acesso ao serviço (claro, sobre como comunicar saúde, nutrição, emagrecimento, alimentação, corpo). Acreditem, emocionalmente, eu me sentia arruinada. Impulsivamente, fui embora. Decisão tomada.

Volto no início de 2016 e sou convidada para? Adivinhem? Sim, voltar a prestar serviço para o mesmo site de dieta. Aqui, tem muitas coisas importantes a considerar: 1. Não voltei no esquema full time de trabalho e, como prestadora de serviço, preservei, a minha autonomia; 2. apesar de minha autonomia, eu não tinha o papel de decisão na comunicação e projetos, ou seja, as orientações feitas muitas vezes (talvez, na maioria) não as via na prática. Claro, isso levou a insatisfações dos dois lados culminando no rompimento em junho desse ano (2017).

Do início de 2000 até 2017, construí a minha carreira dentro de sites de emagrecimento. Você pode dizer que eu bati muito a cabeça apesar das evidências, não é mesmo? Pois é, mas eu acreditava que era possível fazer algo muito bom no que diz respeito à comunicação e atuação do nutricionista nessa área. Acreditava.

Eu sempre acreditei na autonomia do nutricionista e no poder de decisão. Eu sempre acreditei que era o nutricionista que tinha que ditar questões relacionadas à alimentação. Parece óbvio, mas não é. Hoje, entendo perfeitamente a mudança por qual passaram esses serviços. É a única coisa a ser esperada. De uma certa maneira, eu tive resistência. Admito isso, eu não tive maturidade e, principalmente, conhecimento para em 2006, com o mestrado em andamento, em dizer não a uma nova proposta. Aquele era o momento que eu deveria ter feito a mudança e, não, 11 anos depois.

Quando olhamos somente para uma direção, não vemos outras possibilidades, potencialidades e oportunidades. Não me arrependo porque era um caminho que eu tinha que passar. Nesse caminho, encontrei profissionais incríveis que preciso citar porque fizeram parte dessa minha mudança.

Nutricionistas incríveis passaram por mim e vivenciaram o que descrevi acima. Tenho que falar de Ana Carolina Icó que me falou de um certo curso. Ela disse: “Rô, você tem que fazer”. Se não me engano, foi em 2014 ou 2015. O curso era o de aprimoramento em transtornos alimentares do Ambulim do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq/HC/FM/USP). Eu já me identificava muitíssimo com a Nutrição Comportamental mas, juro, não entendia a não dieta. Veja bem, eu me formei em 1999. Se, hoje, ainda é muito difícil em entender, imagina com a minha formação! Essa indicação da Icó não saia da minha cabeça até que, no ano passado, me inscrevi. O curso se encerrou mês passado (julho, 2017).

O aprimoramento foi um ponto decisivo e sem volta. Em muitos temas, ele me deu a certeza que eu estava no caminho certo. Entretanto, ele me deu bases e ferramentas para entender, ou seja, foi um grande aprendizado sobre porque precisamos dizer não às dietas. São motivos que envolvem, obviamente, a relação com os alimentos, a insanidade que é acreditar que para comer tem que haver uma justificativa fisiológica/bioquímica/endócrina, a relação com o corpo, a aceitação corporal, o entendimento de como cada pessoa se alimenta e que cada pessoa tem o seu corpo único. Estereótipos do corpo gordo, do que é comer saudável, do que é saúde, do que é beleza devem ser questionados.

No Ambulim, presenciei atuações de nutricionistas que re-despertaram aquela paixão pela Nutrição porque tiveram dias que eu até duvidei se eu queria ficar na área da saúde.

Agora, eu preciso usar um outro jargão. É o “momento de me reinventar”.

Quero deixar claro aqui que não defendo ou sustento uma dieta, nem as que usam a tecnologia para isso. Quero deixar isso claro porque o que fazemos deixa rastros. Imagine você o quanto de conteúdo meu está disponível na internet. Tem muito texto, conteúdo de redes sociais, vídeos, chats anteriores ao meu novo posicionamento. Eu preciso colocar uma data para isso. Como até junho desse ano (2017), eu fazia conteúdo e estava presente em um programa de emagrecimento online, os conteúdos dessa data e anteriores podem não representar o que eu penso e como eu atuo. Por que “podem”? Porque há muitos outros que desenvolvi para o meu site e minhas redes sociais que já estavam alinhados de um ano para cá. Como disse, a mudança não foi repentina, então, você pode encontrar conteúdos meus que não estão alinhados com o meu atual posicionamento e com o meu pensar sobre a minha atuação. Se for de algum site que não seja o meu ou de uma rede social que não seja a minha, fique atento! Se você vir uma matéria com a data posterior a junho, 2017 dizendo que sou nutricionista de determinado site de dieta ou saúde, é uma informação incorreta.

Quero dizer algo muito importante: eu não oriento nem defendo nenhum tipo de dieta seja ela online ou não. Tampouco uma estratégia ou uma reeducação alimentar para emagrecer. Para saber mais sobre a não dieta, tem um texto meu sobre o assunto. Clique aqui e acesse-o. Mas, é fundamental eu dizer que sim, eu acredito na tecnologia e, sim, é importantíssimo o nutricionista atuar em tecnologia como, por exemplo, ter presença nas redes sociais e, também, em outros tipo de serviços que a tecnologia é a base. E, claro, essa presença do nutricionista tem que ser baseada na autonomia profissional; em um serviço onde o tema central é a Nutrição, esse profissional tem que ser consultado e ter poder de decisão sobre o conteúdo.

O texto já está longo. Sinto que eu precisava escrevê-lo. Como disse, são para as pessoas que me acompanham e perceberam a mudança. Se você quiser conversar comigo, ter algum esclarecimento, dizer algo; use as minhas redes sociais (Instagram: @nutrirobertastella | Facebook: /bemcomerbem) ou o meu email: [email protected]

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