Roberta Stella | Nutrição comportamental, sem dieta e mais empática

outubro 3, 2017
por robertastella
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A comida baiana de Jorge Amado

Ir à Bahia nos leva a uma viagem muito além das praias e do centro histórico. Visitar Salvador é uma excelente oportunidade para conhecer a comida baiana, do acarajé e abará às diversas moquecas e ao pudim de tapioca.

No café da manhã, banana da terra cozida, mandioca e cuscuz de milho. Muito coco e leite de coco nas preparações. Um acarajé genuinamente baiano todos os dias para guardar o sabor na memória. E não é somente o bolinho de feijão frito no azeite de dendê. É o vatapá, o caruru, o tomate verde e o camarão seco, tudo bem temperado com uma boa pimenta. A boca ficou anestesiada, diferentemente das papilas gustativas e das glândulas salivares que deixavam a boca preparada para tantos sabores, texturas e cheiros (sim, o cheiro do dendê no ar já faz a gente salivar!).

No meio de tanta riqueza gastronômica, em uma tarde, fui conhecer a Casa do Rio Vermelho onde Jorge Amado e Zélia Gattai viveram por quase 40 anos. Alí, naquela rua Alagoinhas, número 33, esperava encontrar o cotidiano fascinante de um dos maiores nomes da literatura brasileira e baiana. Como diz o cartaz na entrada “se for da paz, pode entrar”. Entrei.

Casa do Rio Vermelho de Jorge Amado e Zélia Gattai

Casa simples, bem simples, mas de uma riqueza cultural infinita. Não há luxo no mobiliário, mas as histórias contadas de pessoas que passaram e se hospedaram nela me fizeram querer voltar no tempo. Salas, quartos, biblioteca. Quando cheguei nas cozinhas (sim, são duas cozinhas na casa de Amado e Gattai), eu quis registrar. Das poucas fotos que tirei, achei essencial registra-las porque elas representam não somente a cozinha trivial de um casal, mas a reunião de amigos e, também, o alimento dos personagens dos livros de Jorge Amado. Aliás, uma literatura permeada pelos sabores com personagens caracterizados pela comida e temperos baianos.

Por ser uma literatura tão rica em comida, a filha de Jorge Amado, Paloma Amado, escreveu o livro “A Comida Baiana de Jorge Amado”, além de “As Frutas de Jorge Amado”. Segundo Paloma, “aprende-se lendo Jorge Amado que comida não é feita somente para alimentar: ela dá prazer ao ser vista, saboreada, cheirada e, sobretudo, é possível sonhar com ela, pois não se sonha só imagem, sonha-se cheiro, gosto e fartura”.

Saí de lá com a certeza de que valeu o passeio e com a vontade de devorar os livros de Jorge Amado e a culinária de seus personagens contadas por Paloma Amado. Enquanto isso, deixo aqui registros desse canto da casa tão especial que compartilho com você. Se for à Bahia, coloque no roteiro a Casa do Rio Vermelho que, infelizmente, parece ainda ser um passeio “alternativo”para os turistas que visitam aquela cidade. Estique o passeio, desça até o Largo de Santana e se delicie com o famoso e delicioso acarajé da Dinha.

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Largo de Santana

O famoso acarajé da Dinha no Largo Santana.

setembro 18, 2017
por robertastella
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Sobre magros e gordos

Uma sombra ou crítica que acompanha os nutricionistas que dizem não às dietas é que eles fazem a defesa do corpo gordo o que, irresponsavelmente, incentivaria essas pessoas a ficarem doentes. Somente essa frase daria um outro texto no qual a “saúde em todos os tamanhos” ou health at every size (HAES) seria a argumentação para entender que ter um corpo gordo não significa, necessariamente, uma pessoa sem saúde. Pessoas que têm a ideia de que o risco é causalidade propagam um erro grave de interpretação de resultados estatísticos. É sabido que não são todas as pessoas com diabetes, hipertensão, doenças coronarianas ou cânceres que apresentam obesidade. Por isso, julgar o corpo gordo como doente ou que irá desenvolver alguma doença em algum momento é mais uma questão de estigma que o acompanha do que de embasamento estatístico-científico sobre saúde.

Por outro lado, e parece que é mais fácil entender quando é falado do corpo magro, não há a relação de que essa forma de corpo isenta essas pessoas da doença. Você deve conhecer pessoas magras que tem diabetes ou câncer ou hipertensão. Mas você sabe que não são todas as pessoas que tem alguma doença crônica, magras; muito menos, associa que aquelas que não estão doentes hoje, todas desenvolverão algum problema de saúde.

Agora, por que estar com o IMC acima de 25, instantaneamente, leva as pessoas a deduzirem que todas estarão com alguma doença crônica em algum momento da vida? Por que há a crença da relação de causalidade entre estar com excesso de peso e doenças sendo que a relação é de risco?

Assim, quando falamos sobre corpos, não se trata de estar a favor dos magros e contra os gordos ou, então, a favor dos gordos e contra os magros. Essa dicotomia em relação ao peso (magros e gordos) é criticada tanto quanto a dos alimentos (bons e ruins, saudáveis ou não).

A busca é pelo peso natural. Isso é muito importante entender porque, se há a manutenção de um peso baseado em restrições alimentares, esse peso não é natural. Isso significa que se você precisa “controlar” ou “maneirar” em algum determinado alimento durante a semana para se permitir “um pouco no final de semana” e isso te faz ficar dentro desse peso, a estratégia está errada e, provavelmente, esse peso não é o seu naturalmente.

No meio da frase acima, há muitos aspectos a serem entendidos como respeito aos sinais da fome e da saciedade, desenvolvimento da autonomia alimentar e deixar de lado o “fiscal” ou “policial” da comida que coloca sempre o papel julgador em ação. Entendendo todos os aspectos relacionados na escolha e na quantidade de comida ingerida, o peso é consequência.

Nesse momento, começará a entender que, talvez, aquele peso menor não é, naturalmente, seu. Talvez, aquele peso maior não é, naturalmente, o seu.

Percebe-se, então, que peso é consequência de atitudes alimentares. Se as atitudes alimentares são ajustadas para as mais adequadas, o peso que se chegará é o que é o mais natural para você.

Aí, vem o trabalho de aceitação corporal, principalmente, em uma cultura tão opressora para o corpo mais pesado, em aceitar o peso maior do que aquele mantido artificialmente com restrições alimentares. Perceba que digo mais pesado porque, muitas vezes, encontrar o peso natural não significa sair do magro para o obeso. A maior parte, fica dentro do IMC normal, talvez, no sobrepeso. Mas, hoje em dia, isso é tão opressor que é traduzido como gordo ou obeso.

Entender, também, que comportamentos mais adequados em relação à alimentação e ao maior movimento do corpo são os aspectos modificáveis que se relacionam com a melhoria da saúde e do bem estar. O peso não é um comportamento, ou seja, não é modificado por si só. O peso muda se atitudes em relação à forma de se alimentar são ajustadas. Por isso, peso não é objetivo e nem meta. Peso natural é consequência e, para atingi-lo, a caminhada é longa (bem mais longa que as dietas restritivas), mas é um trabalho libertador para aceitar o peso natural e, ao mesmo tempo, melhorar o bem estar.

agosto 16, 2017
por robertastella
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“Se é bom e gostoso, que mal tem?”

alimentos_superpoderesDetox, comida de verdade, receita fit, receita funcional, sem gluten, sem lactose, sem açúcar, sem conservantes, sem soja, sem leite. Ao comentar uma matéria e fazer algumas observações sobre esses tipos de alimento, deparei com a pergunta/reflexão: “se é bom e gostoso, que mal tem?”. Essa argumentação é muito simplista porque, apesar de concordar que a maioria desses alimentos não trazem prejuízo à saúde já que um alimento por si só não pode ser responsável por desenvolver uma doença ou, ainda, apesar de eu concordar que muitos deles são cheios de nutrientes importantes para a corpo – essas chamadas, comunicação, propaganda sem o respaldo da ciência, ou seja, sem o que chamamos de evidência científica (e abro parênteses para dizer que mostrar um artigo científico não significa que haja uma evidência científica suficientemente forte para relacionar os benefícios desses alimentos) podem levar a várias consequências:

1. Mudam a percepção de um alimento. Por exemplo: leite é um alimento típico de brasileiro, presente no café da manhã. Quem duvidar, basta ler o Guia Alimentar da População Brasileira. Sabemos que o leite é uma excelente fonte de cálcio e que a população brasileira já apresenta uma elevada prevalência de inadequação no consumo desse mineral. Passar a mensagem que alimentos e/ou receitas sem lactose são saudáveis (ou vice-versa) para uma população saudável beira a irresponsabilidade;

2. Relação com crenças, valores e desenvolvimento de mitos alimentares. Veículos de comunicação têm grande influência para mudar opiniões, construir crenças, valores e mitos relacionados aos alimentos;

3. Relação emocional com os alimentos. Condenar um nutriente ou alimento como o responsável pela má alimentação, estimular a restrição de nutriente ou alimento, propagar ideias e conceitos sem consenso leva à relação de culpa com os alimentos, à fissura alimentar e à transtornos alimentares;

4. Propaganda enganosa. Vender produtos e serviços que têm como apelo conceitos não embasados em evidências científicas é enganação, mentira e propaganda enganosa. Vale lembrar que nem tudo nessa vida tem evidência científica. Nesse caso, ficar atento ao conceito que está sendo vendido;

5. Acreditar que alimentos caros são melhores ou “mais saudáveis”. Todos clamam por mais “alimento de verdade” no dia a dia mas, tem muita gente (profissionais de saúde, blogueiras, empresas) vendendo alimentos industrializados e/ou com baixo valor nutricional e/ou caríssimos como sinônimo de saudável, além de comunicarem substituições de alimentos que podem ser inatingíveis para a maioria dos consumidores.

No meu pensar, muitos males têm ao se comunicar a alimentação de maneira distorcida, errada, com falta de embasamento, distorcendo conceitos. Todos que comunicam (e não precisam ser jornalistas para isso!), seja por meio de um rótulo de alimento ou usando a mídia (redes sociais, tv, rádio, revistas, jornais) precisam chamar para si a responsabilidade de educar (afinal, comunicar saúde é isso!) não abrindo mão da qualidade da informação. Se a comunicação é feita pela metade, a recepção da mensagem será distorcida.

agosto 7, 2017
por robertastella
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Quando eu trabalhava com programa de dieta online

Há algum tempo, tenho pensado em escrever esse texto. As razões para ele vão desde conversar com as pessoas que seguem o meu trabalho há anos e notam a minha mudança de posicionamento, opiniões e conduta e, até para eu deixar claro qual é o meu posicionamento sobre as dietas. Então, é um texto que divide a minha conduta profissional porque, nela, não pode haver meio termo, ou seja, a minha atuação profissional mudou.

Essa mudança que digo aqui não ocorreu do dia para a noite. Não foi de repente e tão pouco fácil de eu aceitar e entender. Assim, no meio dessa minha história profissional, tiveram altos e baixos, questionamentos que passaram a ser diários e quase torturantes. É aquela grande insatisfação que, talvez, você que lê esse texto já sentiu. Bem, é melhor eu voltar lá para o ano de 2000. No ano anterior, em dezembro de 1999, graduei-me em Nutrição pela Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP/USP). Já no mês seguinte, me vi frente a um grande desafio. Para mim, usando uma palavra muito usada atualmente, considerei inovador um nutricionista poder trabalhar dentro da área da tecnologia/conteúdo de internet.

E lá estava eu, recém-formada e com aquela vontade de revolucionar o mundo, típica dos jovens que saem da faculdade. Ficava imaginando o quão incrível era poder falar com muitas pessoas, saber que uma ferramenta (chat, por exemplo) levaria uma informação sobre Nutrição para centenas, milhares de pessoas ao mesmo tempo. E, assim, foi. Comecei respondendo emails em um site de receitas, fazendo chats para o maior portal do país. Amava o que eu fazia.

Eu participando de um chat em 2001.

Depois de muito trabalho, ficava claro que os usuários desse serviço não tinham dúvidas somente sobre como e o que cozinhar mas, muitos queriam saber sobre como se alimentar melhor. Percebida a demanda, no final de 2001, fiz parte do desenvolvimento do primeiro site comercial de dietas no Brasil. Em 2005, já com algumas questões sobre conteúdo de Nutrição e atuação do nutricionista na internet me fazendo olhar de outra maneira o conteúdo e o posicionamento desse tipo de serviço, deixo o trabalho e inicio o mestrado (2006), também, na FSP/USP. No final do 2006, retorno para trabalhar com internet. Adivinhem? Em um outro site de emagrecimento online.

Aqueles questionamentos, muito mal resolvidos em 2005, iriam me levar para algo que considero uma crise profissional. Cenário completamente diferente, demandas e objetivos que passaram a me fazer mais e mais perguntas sobre onde eu estava, o que eu queria e se realmente os meus valores e em que eu acreditava estavam sendo alimentados ou, simplesmente, passei a remar contra a forte maré. Já era 2014 e, simplesmente, precisava acabar com essa luta interna e, também, com algo que iria seguir um rumo que eu tinha que aceitar que não seria o que eu acreditava ser o melhor para a minha atuação profissional e, também, para quem tinha acesso ao serviço (claro, sobre como comunicar saúde, nutrição, emagrecimento, alimentação, corpo). Acreditem, emocionalmente, eu me sentia arruinada. Impulsivamente, fui embora. Decisão tomada.

Volto no início de 2016 e sou convidada para? Adivinhem? Sim, voltar a prestar serviço para o mesmo site de dieta. Aqui, tem muitas coisas importantes a considerar: 1. Não voltei no esquema full time de trabalho e, como prestadora de serviço, preservei, a minha autonomia; 2. apesar de minha autonomia, eu não tinha o papel de decisão na comunicação e projetos, ou seja, as orientações feitas muitas vezes (talvez, na maioria) não as via na prática. Claro, isso levou a insatisfações dos dois lados culminando no rompimento em junho desse ano (2017).

Do início de 2000 até 2017, construí a minha carreira dentro de sites de emagrecimento. Você pode dizer que eu bati muito a cabeça apesar das evidências, não é mesmo? Pois é, mas eu acreditava que era possível fazer algo muito bom no que diz respeito à comunicação e atuação do nutricionista nessa área. Acreditava.

Eu sempre acreditei na autonomia do nutricionista e no poder de decisão. Eu sempre acreditei que era o nutricionista que tinha que ditar questões relacionadas à alimentação. Parece óbvio, mas não é. Hoje, entendo perfeitamente a mudança por qual passaram esses serviços. É a única coisa a ser esperada. De uma certa maneira, eu tive resistência. Admito isso, eu não tive maturidade e, principalmente, conhecimento para em 2006, com o mestrado em andamento, em dizer não a uma nova proposta. Aquele era o momento que eu deveria ter feito a mudança e, não, 11 anos depois.

Quando olhamos somente para uma direção, não vemos outras possibilidades, potencialidades e oportunidades. Não me arrependo porque era um caminho que eu tinha que passar. Nesse caminho, encontrei profissionais incríveis que preciso citar porque fizeram parte dessa minha mudança.

Nutricionistas incríveis passaram por mim e vivenciaram o que descrevi acima. Tenho que falar de Ana Carolina Icó que me falou de um certo curso. Ela disse: “Rô, você tem que fazer”. Se não me engano, foi em 2014 ou 2015. O curso era o de aprimoramento em transtornos alimentares do Ambulim do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq/HC/FM/USP). Eu já me identificava muitíssimo com a Nutrição Comportamental mas, juro, não entendia a não dieta. Veja bem, eu me formei em 1999. Se, hoje, ainda é muito difícil em entender, imagina com a minha formação! Essa indicação da Icó não saia da minha cabeça até que, no ano passado, me inscrevi. O curso se encerrou mês passado (julho, 2017).

O aprimoramento foi um ponto decisivo e sem volta. Em muitos temas, ele me deu a certeza que eu estava no caminho certo. Entretanto, ele me deu bases e ferramentas para entender, ou seja, foi um grande aprendizado sobre porque precisamos dizer não às dietas. São motivos que envolvem, obviamente, a relação com os alimentos, a insanidade que é acreditar que para comer tem que haver uma justificativa fisiológica/bioquímica/endócrina, a relação com o corpo, a aceitação corporal, o entendimento de como cada pessoa se alimenta e que cada pessoa tem o seu corpo único. Estereótipos do corpo gordo, do que é comer saudável, do que é saúde, do que é beleza devem ser questionados.

No Ambulim, presenciei atuações de nutricionistas que re-despertaram aquela paixão pela Nutrição porque tiveram dias que eu até duvidei se eu queria ficar na área da saúde.

Agora, eu preciso usar um outro jargão. É o “momento de me reinventar”.

Quero deixar claro aqui que não defendo ou sustento uma dieta, nem as que usam a tecnologia para isso. Quero deixar isso claro porque o que fazemos deixa rastros. Imagine você o quanto de conteúdo meu está disponível na internet. Tem muito texto, conteúdo de redes sociais, vídeos, chats anteriores ao meu novo posicionamento. Eu preciso colocar uma data para isso. Como até junho desse ano (2017), eu fazia conteúdo e estava presente em um programa de emagrecimento online, os conteúdos dessa data e anteriores podem não representar o que eu penso e como eu atuo. Por que “podem”? Porque há muitos outros que desenvolvi para o meu site e minhas redes sociais que já estavam alinhados de um ano para cá. Como disse, a mudança não foi repentina, então, você pode encontrar conteúdos meus que não estão alinhados com o meu atual posicionamento e com o meu pensar sobre a minha atuação. Se for de algum site que não seja o meu ou de uma rede social que não seja a minha, fique atento! Se você vir uma matéria com a data posterior a junho, 2017 dizendo que sou nutricionista de determinado site de dieta ou saúde, é uma informação incorreta.

Quero dizer algo muito importante: eu não oriento nem defendo nenhum tipo de dieta seja ela online ou não. Tampouco uma estratégia ou uma reeducação alimentar para emagrecer. Para saber mais sobre a não dieta, tem um texto meu sobre o assunto. Clique aqui e acesse-o. Mas, é fundamental eu dizer que sim, eu acredito na tecnologia e, sim, é importantíssimo o nutricionista atuar em tecnologia como, por exemplo, ter presença nas redes sociais e, também, em outros tipo de serviços que a tecnologia é a base. E, claro, essa presença do nutricionista tem que ser baseada na autonomia profissional; em um serviço onde o tema central é a Nutrição, esse profissional tem que ser consultado e ter poder de decisão sobre o conteúdo.

O texto já está longo. Sinto que eu precisava escrevê-lo. Como disse, são para as pessoas que me acompanham e perceberam a mudança. Se você quiser conversar comigo, ter algum esclarecimento, dizer algo; use as minhas redes sociais (Instagram: @nutrirobertastella | Facebook: /bemcomerbem) ou o meu email: [email protected]

junho 14, 2017
por robertastella
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Dietas, emagrecimento e aceitação

Quando o assunto é “diga não às dietas” ou “dietas não emagrecem” ou, ainda, “dietas levam ao ganho de peso”, não espanto em perceber a confusão que se instala na mente das pessoas. O incentivo para que as dietas sejam deixadas de lado é, no mínimo, perturbador já que o senso comum é que, se há a intenção em emagrecer, a dieta é que vai levar ao peso desejado.

Essa busca pelas dietas e de sair e entrar em alguma nova promessa de emagrecimento não me soa estranha e, não julgo, nem errado quando alguém me diz que está em uma nova “reeducação alimentar” ou nova “estratégia para emagrecer” ou tentando uma nova dieta mesmo. Simplesmente porque está internalizada a ideia de que para emagrecer é fundamental fazer restrição (excluir ou limitar alimento/comida, grupo alimentar e/ou nutriente), fechar a boca, deixar de comer o que gosta e tantos outros pensamentos que passam pela cabeça. Se pensamos dessa maneira é mais do que esperado buscarmos uma dieta ou restrição alimentar.

Há muitas pesquisas que mostram que restrições alimentares levam ao emagrecimento, entretanto, ao chegar ao peso desejado há a recuperação do peso, muitas vezes, atingindo um peso maior do apresentado no início. E isso não ocorre com poucas pessoas, mais de 90% das que seguem dietas, passam pela frustração da recuperação do peso. Sim, se você faz dieta frequentemente, saiba, você não está sozinho.

Então, surge a dúvida: o que fazer para emagrecer? Se restrição não dá certo, parece que eu estou dizendo que, se você não se sente bem com o corpo que tem, você deverá levar esse desconforto para o resto da vida, certo? Errado!

É importante entender que o peso que temos é resultado das nossas escolhas alimentares. Aqui, preciso dizer que as nossas escolhas alimentares são complexas e sofrem influências de muitos fatores como, por exemplo, do tempo que há disponível para comer (sim, muita gente não prioriza a refeição e até prefere ir ao banco na hora do almoço do que comer), se come na frente do computador ou checando o instagram ao mesmo tempo que leva à boca garfadas de comidas uma atrás da outra; das emoções, do significado social da refeição ou da comida, do significado cultural e emocional da comida (sabe o bolo da mãe?), da disponibilidade de alimentos, do ambiente, da propaganda na tv, do blogueiro mais fit do mundo, do custo da alimentação, da rotina de afazeres, da mudança de rotina, da mudança de cidade ou de emprego. Facilmente, percebemos que quando nos propomos a seguir uma dieta, todos os fatores que influenciam nas nossas escolhas alimentares são negligenciados, ou seja, não são considerados. Agora, sabemos uma parte do porque que as dietas têm um índice altíssimo de insucesso.

Assim, para atender esses fatores, o objetivo principal é entender como você come. Percebe que nas dietas, o objetivo principal é emagrecer e, agora, para atender os fatores acima citados e tantos outros que não mencionei, é necessário mudar esse objetivo maior? Entendendo como você se alimenta e melhorando a sua atitude alimentar, o que acontecerá com o seu peso será consequência e você estará trabalhando para aceitar o seu corpo. Aqui, quero fazer somente uma observação: a aceitação do corpo pode ser trabalhada não, necessariamente, junto com a mudança alimentar. Algumas pessoas buscam, primeiro, a psicoterapia já, outras, por associarem a não aceitação com o peso, buscam o nutricionista ou, se preferir, o terapeuta nutricional. Por isso, como estou falando de uma parceria com o nutricionista, o processo de aceitação ocorre juntamente com mudanças nas atitudes alimentares. Mas, sim, a aceitação pode acontecer sem mudanças na alimentação.

Algo muito importante de ser dito, também, é que não fazer do peso o principal objetivo, não faz com que ele seja esquecido, muito pelo contrário. Questões relativas ao corpo serão constantemente trabalhadas, mas o número da balança não irá determinar o sucesso ou o progresso em tantas outras questões que precisarão ser visitadas (lembre-se das atitudes alimentares, entendimento e percepção do corpo).

Espero, que até aqui, esteja claro que o trabalho que será feito não tem como foco o emagrecimento. Se não é emagrecimento, isso significa que não haverá regras, restrições ou dietas.

Talvez você já tenha ouvido falar em alimentação intuitiva e o comer com atenção plena. Elas são duas formas para iniciar o olhar para os sinais do corpo, para prestar atenção ao que está sendo comido, olhar para as sensações, pensamentos e emoções que surgem antes, durante e logo após ter comido. Resgatar os sinais da fome e da saciedade, sabendo identificá-los, é um grande passo e progresso porque eles indicam quando começar a comer (fome) e quando parar de comer (saciedade). Racionalmente, parece um pouco óbvio, não é mesmo? Mas, a prática de dietas repetidas que impõem o que comer, quando comer e o quanto comer fez com que esses sinais fossem deixados de lado. Sinais tão inerentes do nosso corpo que são fundamentais para nos manter vivos podem estar relacionados com sentimentos desagradáveis como medo, raiva e decepção. Por isso, um dos caminhos que serão tomados será identificar esses sinais, pois quando sabemos quando comer e quando parar, temos um intervalo de tempo que será o período do comer (o quanto). Resgatar uma boa relação com os alimentos, trabalhando as crenças, sentimentos, a maneira como come, também, são aspectos que devem ser trabalhados.

Claro que não comemos somente quando temos fome! Comemos para comemorar, quando temos vontade ou desejo, quando estamos tristes ou alegres! Todas esses motivos que nos levam à escolha alimentar são legítimos (não há nada de errado em comer chocolate porque está com vontade, afinal, dificilmente, alguém tem fome de doce!) e devem ser atendidos, mas é necessário lembrar que o nosso comer deve ser regido, na maior parte do tempo, pela fome. Entender o melhor momento, a melhor quantidade, quando esperar, quando atender uma vontade é um processo particular, individual que nenhum guia alimentar conseguirá traduzir ou indicar.

Agora, gostaria de falar sobre corpos e corpo idealizado ou padrão de beleza. Sempre proponho para que as pessoas, na dificuldade de olhar e perceber o próprio corpo, olhem para outros corpos. Na rua, no ônibus, na fila do banco repare nos seios, barriga, coxas, bunda, braços. Ninguém é igual a ninguém! Mesmo se pegarmos meninas e meninos com o mesmo peso e a mesma altura, a forma de todos os corpos serão diferentes! Viva a diversidade! Viva a individualidade! Viva o seu corpo, tão único, tão particular!

Sobre isso, gostaria de abordar dois aspectos:
1. Aceitação: entender-se como uma pessoa única ajudará na aceitação do seu corpo. Aceitar o corpo é um processo e não se sinta pressionado a amá-lo da noite para o dia. Se você sente essa pressão com a onda body positive, vá com calma! Ninguém se ama tão repentinamente quando apresenta dificuldades em aceitar alguma parte ou todo o corpo. Mas, há muitas atitudes nesse caminho de aceitação. Por exemplo, você guarda roupas antigas esperando emagrecer para usá-las? As roupas que você usa hoje estão apertadas? Roupa apertada somada à idealização de um corpo que não é seu claro que não ajuda a gostar mais dele. Se desfazer das roupas e desconstruir o estigma do corpo são partes desse processo de aceitação.

2. Durante o processo de trabalhar as questões envolvidas nas escolhas alimentares, será percebido que o corpo possível e que é único para cada um de nós passa a ter um peso que é possível. Sairá da padronização dos corpos e passará para o que é seu, sustentável, possível, aceito. Esse aspecto é muito importante porque será a consequência de todo o trabalho realizado na alimentação, de entender, enfrentar e vivenciar as escolhas alimentares. Aqui, desejar chegar no manequim 38/40 poderá ser visto como algo irreal e será aceito (não de forma submissa) o peso que condiz com você. Quando digo você, não é o seu peso para a sua altura, mas considerando as suas emoções, as suas vontades, a sua fome, a sua saciedade, os seus compromissos, a sua rotina, o seu momento.

Para terminar esse texto tão longo quero falar da Rihanna. Antes, preciso dizer que o que direi sobre ela é uma suposição baseada na profissão dela que, assim como outras, sofrem a pressão para estarem sempre muito magras. Extremamente magras, aliás. Cantores, atletas, bailarinos, nutricionistas, educadores físicos, atores são profissões que tem uma pressão muito grande par estarem dentro do padrão, do peso idealizado. Se não estiver nesse peso, serão julgados como incompetentes, incapazes, fracassados. Por isso, são grupos que têm um risco maior para ter problemas com a alimentação e para desenvolver transtornos alimentares.

Sabemos que restrição alimentar é gatilho para a compulsão. Dietas (restrições) podem nos deixar magras, mas, como disse no início desse texto, voltamos a ganhar peso. E, muitas vezes, o peso será maior do que o inicial. Então, percebe-se que para manter aquele peso que se chegou com a restrição há muito sofrimento e os excessos alimentares passam a ser frequentes levando ao ganho de peso. As duas pontas dessa história estão desequilibradas. Muito provavelmente, o peso sustentável e possível está no meio desses dois extremos. Por que digo muito provavelmente? Porque não há fórmula matemática para eu prever e ter certeza. A certeza somente chegará no processo de todo o trabalho que conversamos acima.

Se você chegou até o final desse texto, saiba que isso me deixa feliz. Tudo o que escrevi pode ser confuso e difícil de assimilar. Talvez eu posso ajudar com alguns pensamentos:
1. Por que você quer emagrecer?
2. Já emagreceu antes? Se sim, você já atingiu o “por que” da resposta anterior, mas não sustentou? Você acredita que o que busca será alcançado com o emagrecimento?
3. Como você estipulou esse peso que deseja emagrecer? Ele foi baseado em quais questões ou motivos?
4. Você se sente pressionado para ser magro?
5. Você já pensou que o cuidado com o seu corpo pode começar sem ficar obcecado com o peso?
6. Você já pensou em vivenciar a alimentação sem julgamentos, respeitando o seu corpo, os sinais que ele emite, as suas vontades?
7. Quais partes do seu corpo você mais gosta. Você sabe valoriza-los?
8. Você comenta sobre o seu peso para as pessoas quando elas te elogiam? Por exemplo: “como você está linda hoje!” e você diz / pensa: “eu? na verdade, eu engordei!”.

Há muitas outras reflexões que você pode fazer para começar a quebrar a obrigatoriedade de estar magro para atingir o que deseja (saúde, beleza, sucesso, sensualidade) e perceber que dizer não à dieta não é comer do jeito que bem entender. É, na verdade, deixar de olhar para fora e começar a buscar as respostas que estão com você, respostas que estão adormecidas, mas que se questionadas irão surgir.

maio 1, 2017
por robertastella
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8 motivos que levam à falta de motivação durante o emagrecimento

Como lidar com a desmotivação durante o processo de eliminação de peso

No início, há uma grande vontade de emagrecer e de fazer diferente em relação à alimentação, o que impulsiona atitudes que rapidamente trazem resultados. Conforme os dias passam, as semanas correm é comum aparecer a desmotivação. Parece que ela surge assim, de repente, como se não tivesse uma causa. Muitas pessoas, por acreditarem que estão fazendo “tudo certinho” tendo crenças que, claro, estão muito arraigadas, não conseguem identificar onde pode estar a causa do desânimo. Sabendo o que está levando à falta de motivação para continuar na jornada do emagrecimento é possível agir para mudar, buscando resgatar a motivação que está em baixa.

Primeiro, é necessário entender o quanto que emagrecer é importante para você. Pense em uma escala de Continue Lendo →

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